Arte e Lazer
Os
Mutantes iniciam turnê internacional em Londres

Os Mutantes no centro
cultural Barbican em Londres
Os Mutantes deram o pontapé inicial
de sua aguardada turnê internacional com o pé direito. O show no centro
cultural Barbican, na noite chuvosa de segunda-feira em Londres, o primeiro
em 33 anos dos Mutantes com os irmãos Serginho e Arnaldo Baptista e
o baterista Dinho, foi um triunfo.
O grupo tocou todas as músicas mais
importantes dos cinco primeiros discos e várias faixas em inglês do
álbum Technicolor e conquistou a platéia com seu alto astral – como
nos velhos tempos.
A noite começou nervosa. O promotor
do Barbican, Bryn Ormrod, subiu ao palco, pediu desculpas pelo atraso
e anunciou que Serginho Dias Baptista iria testar a guitarra, enquanto
os técnicos faziam os últimos acertos no som geral.
Serginho subiu ao palco, vestido de
mosqueteiro, com colante bege e uma longa echarpe branca. Ele tentou
tirar som da guitarra, mas nada aconteceu. Três técnicos, todos ajoelhados
no palco, tentaram solucionar o problema. Os minutos passaram, Serginho
desistiu, deu de ombros e voltou para a coxia.
"Eletricidade"
Podia-se sentir no ar a eletricidade
da expectativa do público – que lotou o Barbican. Não havia um assento
vazio.
Mais alguns minutos se passaram, o
promotor voltou ao palco e anunciou os Mutantes. O público foi ao delírio,
vendo Arnaldo e Serginho entrando, fantasiados e sorridentes.
O grupo abriu com Dom Quixote e Caminhante
Noturno, com pequenos problemas no som da guitarra. Arnaldo, à esquerda
do palco, sentado aos teclados, Serginho à direita, e, no centro, a
‘novata’ Zélia Duncan, que, no começo, não parecia muito à vontade.
Ela não é Rita Lee, nem tentou ser.
Cantou o vocal principal em poucas músicas, serviu como uma presença
central feminina no palco, interagindo mais com os músicos da banda
do que com o público.
A banda, aliás, além de Zélia, Dinho,
Serginho e Arnaldo, tinha um tecladista, uma percussionista, um baixista,
um músico que tocou teclados, violão, flauta doce, flauta e cello,
além e dois vocalistas, um homem e uma mulher, nos backing vocals.
Ninguém gritou “Rita”, Zélia
foi bastante aplaudida quando anunciada e Serginho e Arnaldo pareciam
se entender muito bem com ela.
Arranjos originais
Os Mutantes optaram por arranjos originais,
substituindo as orquestrações mais complicadas por gravações ou
samplers, como em Dom Quixote, e preservando as harmonias vocais –
sempre distintas, um dos grandes fortes do grupo.
Serginho comandou a banda e os vocais
e mostrou porque era tido como o maior guitarrista de sua geração
em vários solos.
Arnaldo, discreto no teclado e vocais,
irradiava carisma e alegria por estar ali. Cantou Dia 36 , que ficou
impecável. Mas bom mesmo foi ouvir as vozes de Serginho e Arnaldo,
juntas. É como visitar o bairro da Pompéia, São Paulo, em 1969.
À medida que a banda relaxava e ganhava
confiança, o público se animava mais ainda.
Mandaram bem em Ave Gengis Khan, Desculpe,
Babe (em inglês), Technicolor, Virgínia, Cantor de Mambo, El Justiciero
(com uma brincadeira de Serginho, dizendo que o primeiro-ministro britânico
Tony Blair iria chamar el justiceiro George W. Bush para acabar com
o crime na Grã-Bretanha), Minha Menina (bem conhecida do público britânico,
graças ao sucesso de uma versão recente feita pelo grupo The Bees),
Baby (sensacional), Premier Bonheur Du Jour, Dois Mil e Um e Top Top.
À altura de Ando Meio Desligado, Bat
Macumba (com participação do cantor neo-folk americano Davendra Banhart,
nos backing vocals) e Panis et Circensis, o Barbican era uma farra só:
todo mundo de pé, pessoas dançando, cantando junto e gritando we love
you.
Nos camarins, Serginho e Dinho contaram
do sufoco dos ensaios e da ansiedade com o primeiro show depois de tantos
anos. O clima era de alívio e felicidade. Os Mutantes conquistaram
o público, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se nunca
tivessem sumido.
E esse foi só o primeiro show. Fiquei
pensando como vai ser o quarto ou quinto, quando estarão nos Estados
Unidos. Vão estar tinindo, provavelmente fazendo justiça às palavras
da revista Time Out na semana passada, que os chamou de "a maior
banda psicodélica de todos os tempos".
* JSO com agencias