Cláudio Damião
Natal fora de hora
*Cláudio Damião Santos
Pereira
Ele acordara cedo naquela manhã. Mais
cedo do que de costume. Mal abriu os olhos, saltou da cama e correu
para o quintal. O sol já brilhava sobre a copa das árvores e iluminava
radiante aquela bela manhã. Ofuscado pela excessiva luz, Flavinho levou
as mãos aos olhos para protegê-los, até acostumá-los ao contraste
da luz interior da casa à resplandecente luz exterior.
Na sua cabeça, ainda muito jovem,
ecoava o sonoro não, dito por seu pai no dia anterior. Pouco acostumado
a ouvi-lo, talvez por ser filho único, sabia mais o som do sim, a cada
vez que queria algo. Contrariedades não faziam parte do seu dia-a-dia
de criança. Mais afeito a vontades do que contrariedades, aquele “não”
não havia sido bem digerido. Talvez por isso tenha acordado mais cedo
do que de costume, naquele dia.
Já acostumado à luz do sol, pôs-se
a correr pelo quintal a perseguir as galinhas que ali ciscavam distraídas,
a atirar pedras nos patos e, principalmente, no peru, que meio desajeitado,
fugia das suas investidas.
Sem entenderem nada do que ocorria,
como cabe aos patos, galinhas e perus, a estes restava o susto, e a
interrupção do seu solene ato de ciscar. Ariscos, levantavam o pescoço
observando o menino Flavinho, dispersando-se a cada carreira empreendida
pelo pestinha.
Mais do que as galinhas e os patos,
o alvo do menino era o peru. Visitante inesperado que chegara no dia
anterior, comprado a um amigo de seu pai, que o ganhara de um outro
amigo e não tinha como criá-lo. Tal ave era conhecida do Flavinho
apenas no Natal, já posto sobre a mesa, assado e recheado, cheiroso
e saboroso. Vê-lo ao vivo, em carne e penas, esta era a primeira vez.
A apresentação entre os dois se deu
mais ou menos assim:
- Flavinho, tenho uma surpresa para
você, dissera-lhe ontem o pai, que acabara de chegar do trabalho com
o inesperado visitante. Corra e veja no quintal o que eu trouxe.
O menino, como todos os meninos de
sua idade, adora surpresas. Assim sendo, saiu ele em desabalada carreira
para o quintal, onde se deparou com a mais estranha das criaturas.
- Pai, que bicho é esse?
– É um peru, Flavinho.
Daqueles que a gente come no Natal?
perguntou Flavinho.
- É, meu filho, desses do Natal. Comprei-o
do Luiz, que havia ganhado do Jorge em um jogo de cartas. Como ele não
tinha como guardá-lo, e o Natal será só daqui a dois meses,
resolvi comprá-lo, para abatê-lo na data certa.
Se o peru aguçou a curiosidade do
menino, aguçou ainda mais o seu apetite. Cheio de vontades e desacostumado
a ouvir não, disse ao pai, entre perguntando e já determinando:
- Pai, vamos matá-lo?! A mamãe o prepara já para o domingo!...
Dissera
isso pensando nas tenras carnes da ave, no seu paladar e cheiro de assado
impregnando o ar de domingo.
- Não, meu filho. Este peru é para
o Natal, como fazemos todos os anos, já lhe disse, tenha paciência!
O Natal chega logo. Faltam poucos dias, disse o pai.
E ao dizê-lo,
deu por encerrada a conversa. Mas, se o pai a deu por encerrada,
não pareceu ter sido esta a decisão do garoto.
À noite ele dormiu e sonhou com o
almoço de domingo, com o peru assado sobre a mesa, a visita de sua
avó, que costumava almoçar com a família aos domingos, a mesa farta
e a sobremesa generosa. O sonho fora tão real que parecia sentir o
cheiro do peru assando no forno e impregnando o ar com seu cheiro temperado
a alho, cebola, salsinha...
Na manhã seguinte acordara cedo, com
o sonho vivo em sua cabeça, e o peru morto e temperado para o
almoço de domingo. Mas a pergunta que o incomodava na sua jovem cabeça
era: como fazer para o pai atender-lhe o desejo? Corria, portanto,
atrás das aves do quintal e atirava-lhes pedras em busca de uma resposta
a esta sua vontade contrariada. Sem precisar bem o que fazia,
atirava pedras a esmo. Mas, naquela manhã ensolarada, parece que o
acaso estava do seu lado, e o ajudara em seu capricho. Uma das pedras
não é que acerta em cheio a cabeça do peru, que cambaleando, meio
tonto, tomba morto, embaixo do abacateiro. Riscado por uma luzinha do diabo, os
olhos do menino brilham. Dando conta do mal feito, aproxima-se da ave
e coloca bem ao lado de sua cabeça um grande abacate que já estava
no chão. Provavelmente, já maduro, tenha caído, de tão pesado que
era, e agora servia bem aos seus propósitos. Ajudado por uma mão desconhecida,
estava pronto o alibi para sair ileso de tal travessura.
Mal chegara o pai do trabalho, o menino
já o esperava ao portão. À mãe, nada havia dito. Guardara dela o
segredo do mal feito. Com medo de ser descoberto, preferiu a cumplicidade
discreta do pai.
- Pai, aconteceu uma tragédia!
- O que foi meu filho?
- O peru morreu!
- Morreu?!, mas como?! Pergunta o papai
sem nada entender.
- Caiu-lhe um abacate na cabeça enquanto
ciscava no quintal.
- Mas como? Não é possível?!...
Se o pai acreditara ou não naquela
história, não o disse. Os olhos de pai e filho se cruzaram num rápido
relance. Talvez o pai tenha lhe adivinhado os pensamentos e tenha sido
compassivo. Como saber? Apenas se limitou a dizer:
- É, meu filho, teremos peru assado
neste domingo.
*Presidente do Sindicato
dos Bancários de Nova Friburgo
claudiodamiao@pop.com.br
25 de agosto de 2006