Você tem padrinho?
*Cláudio Damião
Santos Pereira
A pergunta que dá título a esse texto foi feita por uma atendente da rede pública de saúde a uma pessoa que necessitava de atendimento médico/cirúrgico, e cujo procedimento ficou agendado para agosto de 2009. Segundo ela, caso houvesse um “padrinho”, o atendimento poderia ser antecipado, saindo de uma fila de prontuários que dormem esquecidos numa gaveta à espera de encaminhamento (ou de um padrinho), passando na frente de outros que já estão na fila, sabe Deus há quanto tempo.
Relato aqui apenas o que ouvi de terceiros. Nem posso culpar a referida atendente pela formulação da desastrosa pergunta, envolvida que está num sistema que privilegia o vício ao invés da eficácia, trilhando tortuosos caminhos, ou melhor dizendo, descaminhos.
Conheço uma pessoa que, por seqüelas de um acidente automobilístico, e precisando de uma cirurgia, deu várias entradas no hospital municipal. A cada vez que era atendido lhe aplicavam um sedativo para aplacar a dor, sendo liberado em seguida sem darem solução ao seu problema. Sem poder se alimentar, por conta da dor que sofria, um dia caiu desmaiado no seu local de trabalho, sendo removido por uma ambulância do Corpo de Bombeiros para o hospital. Para permanecer internado até o ato cirúrgico de que tanto necessitava, entre o “marca e desmarca”, foi preciso fazer muita pressão, me disse ele.
Numa certa manhã, quando fui ao hospital buscar notícias dele, me deparo com a inusitada situação: uma mulher que havia sido removida por uma ambulância, se é que podemos chamar uma Fiat Fioriono de ambulância, caiu no meio da rua e foi socorrida por um dos veículos que vinha atrás. Donde se deduz que não há acompanhante (enfermeiro, médico), no socorro às pessoas que requisitam o serviço de remoção por ambulância do hospital municipal. Provavelmente o motorista coloca o paciente na maca e nem sabe o que está acontecendo com o doente até chegar ao hospital. Pois, para sua surpresa e desespero, durante o trajeto, a paciente havia despencado pelo caminho, e chegou ainda mais alquebrada ao seu destino. Também, nesse caso, não dá para culpar o motorista.
Mas estes não são os únicos, ou os mais escabrosos relatos quanto ao caos instalado no atendimento à saúde pública do nosso município. Cada um de nós já ouviu ou tem uma história para contar. Normalmente acompanhada de muito sofrimento e tragicidade. As longas filas de espera para conseguir atendimento, o longo espaço entre a consulta e o exame ou o procedimento médico, são alguns exemplos.
O sistema virou um caos, que afeta a vida das pessoas que precisam de atendimento, dos servidores da saúde, dos familiares dos doentes, e até dos médicos.
Assim como se faz um diagnóstico das condições físicas de um paciente quando este adoece, para saber seu real quadro clínico, se faz necessário diagnosticar a situação do atendimento à saúde pública em nosso município, para se constatar o nível geral de degeneração a que chegou, e se aplicar os remédios necessários.
Precisamos de soluções sérias e imediatas, que preservem a vida e garantam o constitucional direito da população à saúde de qualidade. Instituir ou aceitar, ainda que tacitamente, a figura do “padrinho” para romper a barreira da burocracia, é o mesmo que legalizar a venda de favores e institucionalizar o caos. É aceitar que os apadrinhados tenham prevalência sobre outras pessoas que estão na fila à espera de socorro, sem considerar a gravidade de cada enfermidade. É estabelecer, em última análise, e em alguns casos, a legalização da lúgubre fila da morte.
* Ex-Presidente do Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo.
- Vereador diplomado pelo TRE-NF
E-mail: claudiodamiao@pop.com.br
- JSO: 18 de dezembro de 2008

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