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CULTURA EM FOCO

Era de ouro do rádio

* Carol Moryc

O rádio foi inaugurado no Brasil em 1º de maio de 1923, com a conferência do professor Roquete Pinto através da Rádio-Sociedade do Rio de Janeiro. As conquistas técnicas do rádio e do disco transformaram a música em uma forma democrática e massificada de lazer. Esse foi um tempo de notáveis radialistas, dentre os quais desponta Henrique Foréis Domingues (1908-1980), mais conhecido pela alcunha de Almirante, apelido que lhe deram desde que serviu à Marinha, entre 1926 e 1927.
Compositor e intérprete da canção carioca no rádio, nos discos e nos espetáculos teatrais, cantor nas primeiras chanchadas cinematográficas, autor e estudioso da música brasileira, dedicado coletor de peças de folclore, Almirante desempenhou as funções de produtor, apresentador, animador, assistente de direção, diretor e consultor de broadcasting. Tornou-se conhecido pelo caráter educativo que imprimia em seu trabalho.
Antes de 1932, começava veladamente e de maneira irregular a publicidade que dava suporte a tendências que não tardaram a ser modelares. Depois, a liberação dos anúncios ampliou o universo de penetração e a função educativa/cultural cedeu espaço para a diversão popular com os programas de variedades, voltados para as imensas massas urbanas ávidas de lazer e diversão.
Inicia-se a chamada Era do Rádio, que durante um quarto de século predominou no cenário social e da comunicação brasileira. Um grande mercado de trabalho foi aberto para compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores, gerando uma demanda na formação de artistas talentosos, colocando o rádio como principal veículo de divulgação e profissionalização dos músicos populares.
O rádio comercial e a popularização do veículo implicaram a criação de um elo entre o indivíduo e a coletividade, mostrando-se capaz de mobilizar as massas, levando-as a uma participação ativa na vida nacional. A profissionalização do rádio começou a se fazer pelo atendimento das exigências do povo, em prejuízo ao sentido cultural e educativo que Roquete Pinto buscava.
Os investimentos publicitários ajudaram no surgimento de novas rádios. Tais se voltaram aos interesses da classe média preocupada com divertimento. Surge a "rádio moderna": o rádio comercial, destinado a atender por todas as formas ao gosto massificado dos ouvintes, para maior eficiência da venda das mensagens publicitárias dos intervalos.
Esta mudança acarretou também modificações na variedade da programação. Houve o encurtamento dos horários ("quartos de hora"), pela radiodifusão de histórias (o chamado "teatro em casa"); pela maior participação de artistas populares em programas de estúdio (o que, em poucos anos, faria surgir os programas de auditório); pela nacionalização do chamado cartaz do rádio (ajudado inclusive pelo governo, com a inclusão de música popular no programa "A hora do Brasil"); e, finalmente, pela presença de figuras do próprio povo diante dos microfones (programas de calouros).
Dirigentes de gravadoras e de emissoras de rádio, proprietários de editoras musicais e cantores começavam a se multiplicar. A arrecadação e a distribuição de direitos autorais ainda era algo nebuloso naquela época, embora uma lei de autoria de Getúlio Vargas, quando deputado representante do Rio Grande do Sul, assegurasse para os compositores o pagamento dos direitos autorais, todas as vezes que as músicas fossem exploradas comercialmente.
Em 12 de setembro de 1936, foi inaugurada, no Rio de Janeiro, aquela que iria se tornar a mais influente e importante emissora de rádio brasileira de todos os tempos: a Rádio Nacional. Com grande investimento do governo, logo passou a figurar entre as cinco emissoras mais potentes do mundo. Sua programação em quatro idiomas levava ao exterior a ideologia do Estado Novo e a imagem de uma potência em formação.
A Rádio Nacional reuniu o maior elenco de talentos, introduziu e consolidou gêneros ainda não tradicionais no rádio, como a transmissão de jogos de futebol. Em breve, impôs seu padrão de qualidade não apenas ao futebol, mas em especial aos shows de auditórios.
Para atender a esta demanda, os conjuntos de chorões, conhecidos como regional pela associação de sua instrumentação com as músicas regionais, eram a principal mão-de-obra do rádio, que sustentava uma programação com atividades basicamente ao vivo.
Em 1939, criava-se o Departamento de Imprensa e propaganda. Suas funções, quanto ao rádio, consistiam em criar o Programa Nacional, exercer a censura prévia e fiscalizar o pessoal que trabalhava nas estações.
Começa em 12 de julho de 1941, a transmissão da primeira rádio novela do País. Durou cerca de três anos os capítulos de "Em Busca da Felicidade", pela Rádio Nacional do RJ. A seguir, vem o grande sucesso: a novela "O Direito de Nascer".
Em 1941, surge o Repórter Esso que trazia o noticioso mais importante do rádio brasileiro. A credibilidade do noticiário era tão grande que o público só acreditava nas notícias se confirmadas pelo Repórter Esso.
No final dos anos 40 e início dos 50, especialistas em transmissões radiofônicas previam que o advento da televisão colocaria um fim na era do rádio. Muitos deles não estavam interessados em sobreviver, já que poderiam atrapalhar a aceitação da TV. Na verdade, o tipo de rádio conhecido por estes especialistas não sobreviveu. No meio dos anos 50, as redes nacionais que dominavam as ondas desde a década de 20 haviam evaporado, substituídas por mais da metade das estações locais. A televisão tomou o comando apresentando transmissões de dramas e comédias, shows de variedades e notícias jornalísticas. Hoje o rádio é o meio de comunicação de maior alcance no país depois da televisão.

* Carol Moryc
- Jornalista, Atriz e Poeta
e-mail:colunaculturaemfoco@gmail.com

- JSO: 09 de julho de 2008

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