Caminhos da ficção
* Carol Moryc
As telenovelas têm o poder de influenciar as pessoas. Esta é a última semana de exibição da novela Caminhos das Índias que trouxe novidades na linguagem, na moda e nos hábitos dos brasileiros. É comum ouvirmos as pessoas nas ruas falando algumas palavras comuns na trama e vestindo roupas e acessórios que os personagens usam com freqüência. Porém, este tipo de influência age mais profundamente no comportamento.
Bombardeado por imagens que são reflexos da vida real, o homem se torna um sujeito passivo e passa a aceitar com facilidade os valores preestabelecidos pelo capitalismo. Troca à realidade pelo consumo de fatos, estórias, notícias e mercadorias e passa a viver em um mundo movido pelas aparências. Assim ocorre com quem se prende as novelas, pois estas quase sempre não trazem nada de novo à sociedade, não buscam a reflexão e trabalham com a repetição de histórias a cada novo folhetim e a falta de acontecimentos a cada novo capítulo. As novidades só aparecem ao término da exibição do dia e não são mostradas por inteiro, para que o telespectador sinta necessidade de assistir ao programa novamente no dia seguinte. As novelas permitem que os indivíduos experimentem, através da projeção de papéis, o que não podem apresentar no dia a dia.
As novelas vão além do entretenimento. A trama é construída a partir das necessidades psicológicas das pessoas, criando uma realidade fictícia e levando o telespectador a desejar obter aquilo que assiste na TV. Para isso, são feitas pesquisas a fim de saber o que exibir para o telespectador de cada horário. A ficção extrapola a realidade quando ocorre a fusão entre as tramas televisivas e as grandes empresas que usam as novelas como forma de anunciar seus produtos.
Apesar de lançar moda e tratar da cultura de outro país, a novela de Glória Perez é distante da realidade Indiana. Trabalha pouco a grande miséria, pobreza, o caos do trânsito, o alto índice de analfabetismo, a má nutrição e demais problemas relativos ao país. A diversidade de línguas, hábitos e modos de vida também são pouco trabalhados. Nesta novela, o destaque está em mostrar crendices e superstições tendo como pano de fundo a história de amor impossível entre pessoas de castas diferentes. 80 por cento da população é formada por hindus e o país apresenta o segundo maior contingente de muçulmanos no mundo. Há ainda o islamismo e o budismo. A novela não mostra a realidade econômica do país que obteve índices satisfatórios de crescimento do PIB durante os últimos anos, mas, devido à crise mundial, passa por uma estagnação em seu crescimento e produção industrial. A trama de Glória Perez, diga-se de passagem uma das melhores novelistas do país, fica alheia à realidade.
As telenovelas deveriam ajudar na formação cultural dos cidadãos, se preocupando em transmitir não só entretenimento, mas também informação. O Brasil é um país com elevado índice de analfabetismo e parca procura por produtos culturais, e a TV ajuda a manter esse quadro ao optar pelo entretenimento puro.
* Carol Moryc
- Jornalista, Atriz e Poeta
e-mail:colunaculturaemfoco@gmail.com
- JSO: 10 de setembro de 2009

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