Mosaico
Infância, mocidade,
maturidade e velhice
* Mourise Hazan
Infância
Veja-se o recém-nascido, infinito
de possibilidades, capaz desse mistério que é crescer. Nós o amamos
por causa da sua naturalidade e da nudez dos seus instintos. Começa
chorando. Depois do longo sono na vida uterina, subitamente, se vê
compelido a respirar e isso lhe dói; é compelido a enfrentar a luz
e isso o incomoda; é obrigado a ouvir ruídos e isso o aterroriza.
Vê a luz, mas atenuada. Ouve, como se os sons viessem de longe. E dorme
a maior parte do tempo. Pouco a pouco, vai aprendendo a natureza das
coisas por meio de movimentos de exploração ao acaso. Sua curiosidade
cresce e o vai desenvolvendo, ele quer tocar todas as coisas.
Mocidade
A mocidade é a transição da dependência
familiar para a dependência de si próprio. É anárquica e egoísta,
porque durante a infância o amor dos pais lhe atendeu a todos
os caprichos. Mimado durante anos e agora solto na vida, o moço
embriaga-se com a liberdade, tem todas as audácias e quer conquistar,
remodelar o mundo. A mocidade quer a excitação da aventura, ainda
mais que o alimento. Quer o superlativo, o exagerado, o ilimitado, porque
o seu excesso de energia procura expansão. O moço não se cansa, vive
no presente, não chora o passado, não receia o futuro. Vive o tempo
das sensações violentas e do desejo sem fim.
Maturidade
A maturidade começa com o casamento
que acarreta o trabalho e a responsabilidade. Pudesse o moço retardar
a sua maturidade sexual de modo a coincidir com a sua maturidade econômica,
prolongando, assim, a adolescência e a fase educativa, a civilização
seria erguida a nível jamais alcançada. A mocidade propõe a maturidade
dispõe e a velhice se opõe. A grande qualidade dos anos maduros está
na moderação.
Velhice
Que é a velhice? É uma involução;
é o endurecer das artérias e da mente, o retardar da circulação
sanguínea e do pensamento. A capacidade para aprender decresce, como
se as células cerebrais não mais admitissem aquisições. A grande
tragédia da velhice consiste em olhar o passado com os olhos nus de
romantismo e só ver as desgraças da humanidade. Esse é o grande drama,
parece-me, da velhice. Impossível louvar a vida quando se vê que ele
está preste a esgotar-se. Se ainda alguns a poupam é simplesmente
por esperar que continue em outro mundo, na Vida Eterna, depois do perecimento
do corpo. A Vida Eterna é a verdadeira vida, para os que assim crêem.
- Escritor
mourise@gigalink.com.br