Mosaico
CARTA-TESTAMENTO

Getúlio Vargas (19 de abril de 1883 - 23
de agosto de 1954)
“Mais uma vez, as forças e os interesses
contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobe mim. Não
me acusam , insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito
de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para
que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente
os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e
espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação
e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar.
Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos
internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o
regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi
detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário-mínimo
se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização
das nossas riquezas através da Petrobrás e mal começa esta a funcionar,
a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até
o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da
espiral inflacionária e que destruía os valores do trabalho. Os lucros
das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano.Nas declarações
de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais
de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se
o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta
foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos
obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia-a-dia, hora-a hora, resistindo a uma pressão
constante, incessante, tudo suportando em silencio, tudo esquecendo,
renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado.
Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina
querem o sangue de alguém , querem continuar sugando o povo brasileiro,
eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis
minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta,
sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.
Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira
de luta. Cada gota do meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência
e manterá a vibração sagrada para a resistência.
Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram,
respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto
para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será
escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma
e meu sangue será o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil.
Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O
ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei
a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar
na história.”
Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954
Getúlio
Vargas
- Escritor
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