M O S A I C O
Hábitos
* Mourise Hazan
Imagine-se o comandante de um navio
dando sinal de partida em sua embarcação sem que os seus comandados
saibam onde devem agir, ou ainda esse mesmo comandante dirigindo-se
constantemente a cada um dos seus tripulantes para lhes mostrar como
devem conduzir-se ou ainda para assegurar-se de que tudo vai bem. Isto,
sem dúvida, seria quase impossível se cada um dos comandados não
tivessem adquirido o hábito de suas respectivas tarefas.
Imagine-se um grande industrial empregando
todos os recursos da sua inteligência para verificar o funcionamento
detalhado das peças produzidas por seus operários. Ele não terá
tempo para se inteirar das regiões que lhe fazem mais pedidos ou daquelas
onde poderá obter maquinário e matéria-prima em melhores condições,
ou ainda conhecer novas invenções que lhe interessem. Torna-se necessário
que ele possa confiar nos seus operários, já que não pode fazer tudo
por si mesmo. Cumpre-lhe aliviar-se dos pormenores, a fim de que possa
consagrar tempo para a observação atenta do mercado universal, de
onde poderá tirar base para os seus cálculos.
É necessário que ele possa passar,
com toda tranqüilidade, semanas fora da sede da sua indústria para
visitar a sua clientela e certificar-se , por si mesmo, do curso dos
seus produtos. Imagine-se a lentidão em que irão as coisas, se os
operários e o corpo administrativo da sua indústria começassem pensando:
“Devo fazer isso ?”
Ou “Como tenho de fazer ?”
Torna-se necessário , pois, que o
dirigente cuide para que todos os seus empregados façam os seus serviços,
sem entrar em pormenores e para isso devem adquirir o hábito da execução
das suas tarefas. Os nossos próprios hábitos são, também, formas
da nossa atividade. A nossa permanente atenção já não lhes são
necessárias.
Uma vez adquirido o hábito é necessário
certificar-se, de vez em quando, de que tudo vai bem.
Pense-se, por exemplo, num estudo de
piano. Se fosse indispensável considerar as notas, uma a uma, aplicando-lhes
o espírito, como seria extenuante, freqüentemente, se fosse mister
prestar atenção ao lugar preciso de cada sustenido e de cada bemol.
Depois de freqüentes repetições, as diferentes teclas se encontram
com o tempo debaixo dos dedos, por puro hábito. Os olhos enxergam a
nota e os dedos seguem, automaticamente.
O objeto de todo exercício é criar
um hábito, cuja utilidade é libertar o espírito a fim de que ele
possa ver mais longe e refletir mais profundamente.
Se uma criança for habituada a comer
direito como as pessoas educadas o fazem, não lhe será necessário
pôr o espírito em tortura a propósito de cada movimento, no dia em
que estiver num banquete.
Como se pode adquirir hábitos preciosos?
Certamente pela repetição dos mesmos, quando as ações se tornam
automáticas. Assim, depois de várias repetições, os pequenos gabinetes
dos nervos, indo ter ao cérebro, comunicam ao gabinete central dos
movimentos, os estímulos vindos de fora.
Os bons hábitos, uma vez adquiridos
por uma pessoa, fazem desta ficar livre da preocupação de esquecer-se.
Em suma, quem não conseguir adquirir
bons hábitos, será apenas um dirigente mau, senão medíocre, da própria
existência e nunca chegará a nada.
- Escritor
mail:
mourise@gigalink.com.br
* JSO – 24 de maio
de 2007