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Discursão sobre as ilhas Malvinas

Plataforma de prospecção de petroleo britanica - Foto: divulgação
Plataforma de prospecção de petroleo britanica a caminho das Malvinas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em seu discurso em Cancún que o Conselho de Segurança das Nações Unidas "deve reabrir" a discussão em torno da jurisdição sobre as Ilhas Malvinas, em disputa entre Argentina e Grã-Bretanha.
Em seu discurso durante a Cúpula, Lula questionou tanto a postura da Grã-Bretanha como a da ONU no episódio.
- "Qual é a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Qual a explicação política de as Nações Unidas já não terem tomado uma decisão dizendo: não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas e seja um país como a Grã-Bretanha a 14 mil quilômetros de distância?", questionou Lula.
Lula sugeriu que a resposta para esse questionamento pode estar no fato de a Grã-Bretanha ser um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
- "Será que é o fato de a Inglaterra participar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e para eles pode tudo e para os outros, não pode nada?", disse.

Coragem

O presidente pediu aos 32 chefes de Estado e representantes de governo que participam da cúpula que "instiguem" a ONU a "reabrir a discussão" sobre a disputa territorial entre Argentina e Grã-Bretanha.
Lula aproveitou o debate em torno das Malvinas para sugerir a reforma do Conselho de Segurança da ONU, uma de suas principais reivindicações no cenário internacional.
- "Não é possível que a ONU continue com o Conselho de Segurança representado pelos interesses geopolíticos da Segunda Guerra Mundial e não leve em conta todas as mudanças que ocorreram no mundo.", continuou em seu discurso.
Ainda de acordo com o presidente Lula, se os países da região "não tiverem coragem" de enfrentar esse debate, a ONU “vai continuar a funcionar sem representatividade e os conflitos no Oriente Médio vão ficar por conta dos interesses eminentemente norte-americanos.”.
- "Na verdade era a ONU que deveria assumir a responsabilidade de estar negociando a paz no Oriente Médio, as discussões com o Irã. Por que a ONU se afasta e os países individualmente tratam desses assuntos?”, questionou.
Segundo ainda Lula, a ONU "perdeu representatividade" e muitos dos países que ficam no Conselho de Segurança "preferem a ONU frágil".
- "Assim eles podem desobedecer às decisões da ONU e fazer de seu comportamento, enquanto nação, a grande personalidade de governança mundial", finalizou Lula.

Histórico Malvinas

As Malvinas, chamadas pelos britânicos de Falklands, são um arquipélago de dezenas de ilhas ao sul do Oceano Atlântico.
O território pertence à Grã-Bretanha, mas ele fica geograficamente próximo do litoral da Argentina, que reivindica a soberania sobre a região desde o século 19.
A Argentina invadiu o arquipélago em abril de 1982, iniciando uma guerra com a Grã-Bretanha. A vitória britânica, em junho do mesmo ano, não impediu Buenos Aires de continuar aspirando ao controle sobre as ilhas.
Os argentinos acreditam que herdaram o território dos colonizadores espanhóis, que disputaram a soberania sobre o arquipélago no século 18 com os britânicos.
Grã-Bretanha e Espanha chegaram a estabelecer colônias simultâneas nas ilhas, mas os britânicos abandonaram o assentamento, abrindo caminho para a presença de colonos argentinos – que, depois, foram expulsos pelos britânicos.
O principal argumento britânico para manter a soberania sobre as Malvinas é que, hoje, a população local é britânica e prefere manter os laços coloniais.

Petróleo explicam as questões sobre as Malvinas

Para muitos analistas, é "justa" a reivindicação argentina em relação às ilhas.
O endurecimento do discurso de Argentina e Grã Bretanha em torno da disputa pelas Ilhas Malvinas ocorre em um momento de alta no preço do petróleo e atende, principalmente, a questões de política interna dos dois países, segundo a opinião de analistas argentinos.
- "É um assunto de política interna tanto para Cristina Kirchner, presidente da Argentina, quanto para Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, num momento difícil para os dois em seus países. E ocorre quando o preço do petróleo é alto.", afirmou o analista e ex-secretário de Energia da Argentina Daniel Montamat.
O analista político Eduardo Fidanza, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), afirma que o tom elevado do discurso de Buenos Aires é parte de uma estratégia de Cristina Kirchner para também ganhar popularidade.
Fidanza lembrou que Cristina registra baixos índices de popularidade e vem tentado reverter a situação desde o ano passado, com medidas como a estatização das transmissões televisivas de futebol.

Diplomacia

Os dois especialistas entendem que qualquer solução para o novo conflito se dará pela via diplomática e descartam o risco de um novo enfrentamento bélico, como o que ocorreu em 1982.
Na época, militares argentinos, com forte rejeição popular, tomaram a decisão de invadir as Malvinas, para o que receberam forte apoio da opinião pública. O apoio se manteve até que os argentinos fossem derrotados pelos ingleses. A derrota na guerra das Malvinas é considerada um dos principais motivos que levaram à derrocada do regime militar argentino.
Montamat e Fidanza destacam que é "lógica" e "justa" a reivindicação do governo argentino contra as iniciativas da Grã-Bretanha para explorar petróleo no arquipélago do Atlântico Sul.
- "Na escola, aprendemos que as ilhas são argentinas. A Argentina reivindica a soberania e o governo está no seu direito de protestar contra as ações da Grã-Bretanha", disse o analista político Fidanza.

Plataforma

A nova disputa entre Argentina e Grã-Bretanha ocorre em meio à expectativa pela chegada da primeira plataforma de exploração de petróleo às ilhas, prevista para acontecer este fim de semana. A plataforma pertence a empresas privadas autorizadas pelo governo britânico a buscar hidrocarbonetos naquelas águas.
- "A chegada da plataforma é um sinal de que ali pode existir petróleo. Nada está confirmado até agora. Mas, se realmente o petróleo for encontrado, a situação entre os dois países ficará ainda mais difícil.", disse Montamat.
Para ele, a solução para a Argentina seria ampliar sua exploração petroleira no continente até a fronteira com a região no centro da disputa.
- "Quanto mais empresas estiverem buscando petróleo no sul do país, mais chances teremos de encontrá-lo e autoridade para dizer que as empresas que estão aqui não poderão explorar na área em litígio.", afirmou Montamat.
O ex-secretário de Energia da Argentina lembrou que, até agora, somente um consórcio que inclui a Petrobras, eempresa brasileira, está autorizado a procurar petróleo na região argentina.
Para ele, a discussão sobre a exploração petroleira nas Malvinas ganhou mais força devido à alta do preço do petróleo em relação às décadas de oitenta e noventa.
Montamat ressaltou que a política da Grã-Bretanha em relação às Malvinas foi "contínua", enquanto que a da Argentina foi de "sedução nos anos noventa, depois de indiferença até chegar a 2007, quando o governo de Nestor Kirchner rompeu unilateralmente essa relação".

Apoio internacional

O vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores, deputado Ruperto Godoy, do partido governista Frente para a Vitória, disse que a estratégia do governo será "pedir a solidariedade" de outros países nos fóruns internacionais.
- "Compartilhamos a decisão do governo argentino de rejeitar a iniciativa da Grã-Bretanha de iniciar a exploração de petróleo, em área que está em conflito. Queremos que seja obedecida a determinação das Nações Unidas para que se encontre uma saída, através do diálogo, para a soberania das ilhas.", afirmou o parlamentar.
Será votada, no Congresso argentino, uma declaração de "repúdio" às iniciativas inglesas em relação às Malvinas.

Brasil defende apoio à Argentina sobre Malvinas

Os chefes de Estado que participam da 2ª Cúpula da América Latina e Caribe, em Cancún, no México, podiam sair do encontro com um documento de apoio à Argentina sobre a questão das ilhas Malvinas, Falklands, para os ingleses.
Essa, pelo menos, é a expectativa do governo brasileiro, segundo o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia.
- “Poderiamos sair daqui com uma posição de apoio; Não sei exatamente em que termo, mas sairemos com uma posição firme, disse Garcia a jornalistas em Cancún.
Segundo ele, essa é uma questão de “alta sensibilidade” para toda a região.
- “Temos hoje, felizmente, uma posição consensual de apoio, diferentemente do passado.”, afirmou.
Segundo Garcia, quando houve a guerra das Malvinas, em 1982, o cenário “era diferente”. Segundo ele, naquela época, a Argentina vivia num regime militar, o que poderia tornar “mais turva” a situação.
Ele lembrou ainda que, mesmo naquele episódio da década de 80, a posição da diplomacia brasileira foi de apoio à Argentina.

Apoio dos vizinhos

O governo argentino está protestando contra a iniciativa da Grã-Bretanha, que tem a jurisdição do arquipélago, de iniciar a exploração de petróleo nas ilhas Malvinas e convocar licitações sem comunicar a Argentina. A primeira plataforma de exploração deve começar o processo de exploração muito em breve.
O governo argentino já sinalizou que buscaria o apoio da região na questão das Malvinas.
o porta-voz oficial da Argentina para a questão, o deputado Ruperto Godoy, disse que o país buscaria apoio internacional dos vizinhos para tentar reverter a exploração de petróleo por parte da Grã-Bretanha no arquipélago.
- "Estou certo de que não haverá problema para coordenar com nossos países irmãos esta decisão tomada pela Argentina.", disse Godoy, que também é vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.
O deputado citou o encontro de Cancún, no México, e afirmou não ter "a menor dúvida de que a Argentina encontrará solidariedade de todos os países".

Guerras das Malvinas

As disputas entre a Argentina e a Grã-Bretanha envolvendo as ilhas Malvinas, sob controle britânico desde 1833, foi objeto de uma guerra em 1982, quando os argentinos foram derrotados após tentarem uma invasão.
Apesar da derrota das tropas argentinas, o governo mantém uma reivindicação pela soberania das ilhas na ONU e defende sua jurisdição sobre as Malvinas.
As Nações Unidas, por sua vez, recomendam que os dois governos retomem a negociação pela soberania das ilhas e aconselha ainda que nenhum dos dois países realize modificações unilaterais sobre a região.

- Com Agencias Internacionais
- JSO: 16 de janeiro de 2010

- Leia também:

- Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos

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