Bolívia I e II
* Sérvio Ribeiro
Quando a Bolívia elegeu seu primeiro presidente indígena, era evidente que um racha havia surgido na estrutura de poder no país. Não que o país jamais tenha sido exemplo de unidade política, muito ao contrário. Sua própria gênese já foi fruto de desentendimentos entre Bolívar e Sucre. No entanto as diferenças que transformaram a Bolívia num país politicamente instável, sempre se deu entre a população branca, de origem espanhola e que manteve o poder em suas mãos apesar de não chegar a 20% do total. A Bolívia é o país de maior população indígena da América do Sul, e, apesar de possuir o departamento de Potosi, que inundou a Europa de prata no passado, é também o país mais pobre nesse canto de planeta.
Dos 9 departamentos em que é dividido o país, 4 pretendem aumentar sua autonomia e para tal já marcaram um plebiscito. O mais importante deles, o de Santa Cruz, faz hoje esse plebiscito, sob a observação ansiosa do resto do país e da América do Sul. A divisão interna maior é entre um Movimento ao Socialismo (MAS) liderado pelo presidente Evo Morales e os “Cívicos” que tem em Santa Cruz sua principal cidadela. Santa Cruz produz praticamente 30% do PIB boliviano e pretende que 50% da arrecadação de impostos que produz fique no departamento e não mais siga para La Paz para então ser redistribuída como é hoje. Entre outros, como o direito de firmar contratos internacionais, são os direitos que o departamento pretende se auferir com a vitória da descentralização. A província em questão pode ser entendida em vários aspectos com uma extensão do Brasil, com 50 anos de atraso.
Atravessando a fronteira em Corumbá já estamos em Santa Cruz, e se avançamos até sua capital, de mesmo nome, notamos facilmente a razão dos pecuaristas e agricultores brasileiros terem se interessado em ocupar espaço nesse imenso território, em tudo semelhante ao nosso. Como já disse, quem visitou o Mato Grosso na década de 50/60 e visita hoje o território entre Corumbá e Santa Cruz, como que faz uma viagem no tempo.
Há, por isso mesmo, uma completa dessemelhança com a parte andina do país, que num primeiro momento, espanta o viajante. A planície boliviana, além da diferença topográfica, apresenta também uma diferença humana, pois aí o elemento branco é dominante, enquanto os indígenas quéchuas e aymarás formam menos que 10% da população. Aliás, uma das demandas do plebiscito é não considerar essa minoria local como indígenas regionais.
Se em Santa Cruz os “Cívicos” conseguiram um maioria clara, que deve se expressar hoje nos votos, no resto do país os MAS não são claramente maioria, mesmo em La Paz. As divisões internas no Movimento ao Socialismo, fazem temer até mesmo golpes internos, já expressados pelo presidente Evo Morales.
Morales faz-me lembrar o Lula que perdeu para Collor e hoje admite ter sido bom para o Brasil aquela derrota, pois consegue entender que não tinha preparo para as responsabilidades que agora percebe pesar sobre os ombros de quem exerce o poder.
Morales, antes mesmo de um período de amadurecimento político, atingiu o poder numa onda de reação e é meridianamente claro que não tem perfeita noção das conseqüências a médio e longo prazo de seus atos. Isso é péssimo para a América do Sul em geral e seu intento de união, pois desequilíbrios internos em nada ajudam países pobres como a Bolívia a resolverem seus problemas colossais.
A parte Andina, onde são maioria os indígenas é a região menos propícia ao desenvolvimento econômico. Simplificando um pouco, o aeroporto de La Paz fica a 4.000 metro de altitude, o centro da cidade a 3.500 metros e seus subúrbios mais longínquos a 3.000 metros de altitude. Se como beleza estética, os Andes são um colosso, como local para desenvolvimento econômico são um obstáculo quase intransponível.
É exatamente a planície que pode alavancar a economia boliviana, não apenas em bens naturais como o gás, mas principalmente no desenvolvimento de uma agricultura robusta, com a ajuda brasileira, num momento em que o mundo começa a se conscientizar do problema alimentício, com a entrada dos chineses e indianos à mesa.
Caso o plebiscito em Santa Cruz e nos demais 3 departamentos que definem a planície boliviana gerarem um grave problema interno, a Bolívia manterá sua história de precária estabilidade política, pois até mesmo a hipótese de uma guerra civil não está completamente afastada.
A atual Constituição, que ainda carece de um referendo popular a ser feito, é o ponto de apoio de Morales para negar valor jurídico ao plebiscito que hoje é realizado, mas se os votos forem majoritários expressivamente aos “sim”, como se espera, um grande problema político terá surgido em nossa região.
Como já previ em outro “Ponto de Vista” a estabilidade de Morales continua em pauta, como da maioria dos anteriores líderes bolivianos.
* Escritor
- JSO: - 04 de maio de 2008

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