Líbano I, II e III
* Sérvio Ribeiro
Milícias armadas do Hesbolah tomam Beirute, inclusive o aeroporto, semana passada, por não concordarem com decisão governamental.
Se há um país difícil para um estrangeiro entender é o Líbano.
Somos obrigados a uma super simplificação que corre o risco de desvirtuar o tema.
Ousemos.
Explodir o país em três partes é o mínimo para que possamos começar a perceber as diferenças em que se divide um pequeno pedaço de terra, menor que Sergipe, no oriente médio, com pouco mais de 5 milhões de habitantes. O mais correto talvez fosse dividi-lo em 18 partes, que formam as principais correntes políticas libanesas hoje em dia, mas aí o espaço seria pequeno para entendê-las uma a uma.
Fiquemos então com os cristãos e as duas principais divisões mulçumanas, os xiitas e os sunitas.
Para começar, cada um dos três grandes “partidos” libaneses citados possuem sua própria milícia armada. Imaginem se o PT, o PSDB e o DEM possuem grandes grupos fortemente armados, nem sempre sobre total controle (as tais 18 subdivisões), dispostos a enfrentamentos violentos, sempre que seus interesses maiores fossem considerados em xeque.
Pensem em notícia tais como, “a milícia do PSDB ocupou Brasília em repúdio a idéia do governo de reeditar a CPMF, mais de 60 mortes ocorreram em confronto com grupos armados do PT”. O exército, composto por membros das três facções não pode atuar na repressão sob pena de se dividir internamente. Talvez isso possa nos dar uma idéia da situação.
No final da Primeira Grande Guerra, os franceses e ingleses dividiram entre si o espólio turco no oriente médio, ficando a França com a região composta hoje pela Síria e o Líbano (mais um trecho da atual Turquia). O colonizador francês houve por bem dividir a região em 4 unidades, mais tarde reunidas pelas elites locais, que ficaram independentes, e concordaram em manter o Líbano como uma área soberana.
Os cristãos libaneses estão lá desde o princípio do cristianismo. Os muçulmanos chegaram mais tarde, com Maomé. Já na época das cruzadas esses libaneses receberam bem os seus congêneres europeus e o Líbano foi, desde sempre uma espécie de porta da Europa no oriente médio.
Seu sistema bancário era o mais adiantado, a ponto de ser conhecido com a “Suíça” local. Tudo foi abaixo com o surgimento do estado de Israel e o afluxo de palestino, fugidos de lá e mais tarde da Jordânia, buscando o Líbano como refúgio, que eles imaginavam temporário, pois levavam a chave de suas casas deixadas para trás na fuga.
Um Líbano, já dividido, mas em equilíbrio político, vê-se subitamente como sede da OLP de Arafat e por fim invadido por Israel que ocupa parte de seu território. A “mãe” Síria também invade e ocupa a outra metade, ficando o estado Libanês reduzido a quase nada, com duas ocupações militares. Os cristãos, mais sensíveis aos argumentos israelenses, vêem-se polarizados com os muçulmanos, agora engrossados pelos irmãos palestinos.
A guerra Iraque Iran, reforça as diferenças sunitas e xiitas na região e polarizam também o campo muçulmano.
Uma guerra civil (1975 a 1990) é a conseqüência natural de tantas dissensões internas.
Com as retiradas recentes das ocupações militares sírias e israelenses as fissuras se manifestam com clareza. O antigo sistema de o presidente ser cristão e os dois líderes do parlamento ser muçulmanos ( um sunita e um xiita) continua a valer, mas o equilíbrio político é precário.
Como herança das guerras, todos os grupos são armados e prontos a usarem essas armas quando se sentem prejudicados.
Enquanto o ocidente apóia os cristãos, a Síria (e o Iran) apóiam os muçulmanos, principalmente os xiitas (o Iran é o berço do xiismo). A Arábia Saudita (sunita) teme o desenvolvimento de um poder xiita na região. Grupos como o Hesbolah e o Hamas aceitam o status quo, apesar da distribuição oficial do poder não lhes fazer justiça, em termos demográficos (não se faz um censo no Líbano, para evitar mudanças bruscas na política oficial).
Enfim, a imagem já gasta de um barril de pólvora e um estopim curto aqui se aplica naturalmente.
As recentes notícias de um levantamento armado do grupo Hesbolah começam a ficar menos obscura dentro desse quadro. Os xiitas estão montando (ou melhorando) uma rede de telefones (comunicação) independente no país. O governo tenta abortar essa intenção, mas tem que voltar atrás, pois o Hesbolah vai às ruas armados.
Enfim... tentar-se entender esse processo complexo em poucas palavras e praticamente impossível.
O Líbano já foi a “Suíça” do oriente médio, hoje não pode ser comparado a nada e passa ele mesmo a ser o paradigma de divisões internas insolúveis.
Poderíamos talvez utilizá-lo como medida do risco que corre o Rio de Janeiro, com suas milícias e narcotraficantes cada vez mais fortes e ousados (assassinaram ontem um delegado de polícia).
O Rio, se não souber agir a tempo, poderá vir a se transformar num “Líbano” sul americano.
* Escritor
- JSO: - 20 de maio de 2008

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