Barbárie
* Sérvio Ribeiro
O quadro de violência no Rio de Janeiro atingiu seu ponto final.
De agora para frente só poderá continuar avançando em termos quantitativos, pois qualitativamente não há mais terrenos à conquistar ou direção em que avançar.
Um ex governador (Garotinho) é indiciado como membro de uma quadrilha armada no Estado. Seu braço direito executivo seria o chefe da polícia civil (Álvaro Lins).
É o ponto final !
Não existem mais autoridades superiores, pelo menos a nível estadual, passíveis de serem responsabilizadas por estarem envolvidas com à criminalidade.
Pensava-se que receber em palácio os principais chefes da contravenção no Rio, como fez um outro governador (Moreira Franco), seria o máximo possível de convivência entre a civilização e a barbárie, mas agora um ex governador terá que responder à justiça como chefe de quadrilha !
Tenho que repetir: não há mais como piorar, não existem autoridades superiores para serem acusadas, “é o dilúvio” !
Poderíamos citar antigos governadores também apontados, mas nunca com provas fortes o suficiente para serem indiciados formalmente pela justiça, como agora.
Certamente os tempos são outros !.
A violência na cidade, de uma certa maneira, fica menos difícil de se entender, quando as mais elevadas autoridades possíveis, estão também vinculadas ao crime. A música de Chico Buarte deixa de ser metafórica: “socorro, chamem o ladrão”.
A banda podre da polícia, ficou demonstrado, vai do soldado raso ao Governador do Estado, passando pelo chefe de polícia. Simplesmente não há mais o que fazer, somos uma sociedade criminosa.
Minha contribuição pessoal é pequena, mas assim mesmo ajuda à manter o sistema: dar uma gorjeta ao guarda para que faça vista grossa ao documento atrasado do meu carro. Aliás ele já para o carro com olho nessa gorjeta.
Naturalmente que a gorjeta do banqueiro de bicho é bem maior, sem falar dos banqueiros oficiais, mas essa já é para as autoridades superiores “flexibilizarem” a lei.
Num país em que o ex governador de um dos Estados mais importantes e o ex chefe da casa civil do presidente da república (José Dirceu) estão indiciados por formação de quadrilha, poucas são as esperanças de que o quadro possa reverte à curto prazo.
Viveremos criminosamente ainda por um bom período. A situação, pelo visto, terá que piorar antes que possa começar a melhorar. Sair à noite já é matéria de graves ponderações hoje em dia; mesmo durante à luz do sol, várias áreas da cidade se encontram interditadas ao cidadão comum. Um erro, como feito há poucos anos, por um grupo desinformado de outra cidade (São Paulo) pode significar a morte por fuzilamento sumário. Imagino que em breve teremos, não mais áreas interditadas mesmo durante o dia como agora, mas sim áreas “liberadas”, fora das quais não será possível transitar sem risco imediato ou com guarda costas fortemente armados para auto proteção. Não é mais pura ficção imaginar o dia em que a Linha Vermelha será liberada para tráfego seguro em horários pré determinados. Nas demais horas será por conta e risco dos motoristas. Atualmente só existe a segunda hipótese.
O retorno lento, gradual e seguro à barbárie continua numa mesma direção há já algumas décadas. Quer a solução seja política, social ou policial terá que esperar outros políticos, outra sociedade e outros policiais, os atuais já deixaram claro à que vieram e encontram-se perfeitamente “incluídos no contexto”.
A ação do governador em exercício, condenada pela ONU por possíveis excessos, ficaria justificada ?. É difícil concluir, pois não podemos acreditar que o “corpo geral” do sistema repressivo não seja o mesmo de antes, eivado de crimes e acobertamentos internos. Mesmo que nosso governador (Sérgio Cabral) e chefe de polícia atual não sejam da mesma estirpe (e parece que não são !) , são do mesmo partido, PMDB. A estrutura geral do Estado continua sendo a mesma.
Com material de construção de “terceira” não é possível se construir uma obra de “primeira”. Pode-se aumentar ou diminuir a velocidade da decadência, mas não inverter a sua direção.
Entre mortos e feridos, balas perdidas e corrupção, reclamações da ONU e governadores indiciados, ex chefes de polícia preso e ex chefe da casa civil quadrilheiro, continuamos, ora mais ora menos rapidamente, no mesmo rumo de sempre:
A barbárie !
* Escritor
- JSO: - 29 de maio de 2008

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