INSURREIÇÃO NA BOLÍVIA
* Sérvio Ribeiro
Conforme já prevíramos em artigo anterior, um incêndio político se alastra pela Bolívia, com possibilidades de estourar em uma guerra civil ou, até mesmo, uma divisão do país em duas entidades, topologicamente mais homogêneas.
Não posso, entretanto, me vangloriar de enxergar mais que a média; afinal, prever crises políticas na Bolívia é fácil, foram mais de 200 crises desde a fundação até os dias de hoje.
No entanto existe uma previsão menos fácil, mas também não muito difícil: a invasão da Bolívia pelas forças armadas brasileiras.
Demência? Senão vejamos.
A indústria paulista, refém do gás que vem da Bolívia, pararia em poucos dias, caso o fornecimento seja interrompido por razões de descalabro institucional naquele país. O Brasil simplesmente não pode deixar São Paulo parar, seria uma catástrofe interna. A solução natural seria aquela proposta pelo presidente Geisel, quando se negou a bancar o gasoduto Bolívia Brasil.
– E se eles fecharem a válvula lá do outro lado, o que faremos, mandamos o exército para abri-la?
Pois essa hipótese não pode ser rechaçada nas condições atuais. Caso a oposição resolva criar um “casus belli”, essa seria a melhor opção, pois colocaria em cheque o exército boliviano, que atualmente apóia totalmente Morales. Ou o exército boliviano agiria ou seríamos obrigados a agir nós mesmos.
Vou até mais longe e afirmo que nossas forças armadas já possuem um plano para essa invasão, caso ela seja a última saída. Seria até um crime de lesa pátria nossas forças armadas não previrem essa hipótese, ainda que apenas por precaução. Claro que numa situação limite como essa o Mercosul se desintegraria. As contradições seriam demasiadas. E no entanto, não podemos deixar São Paulo sem o gás boliviano. Eis o nó górdio.
Por essas e outras razões foi organizada às pressas uma conferencia da Unasul onde dos 12 membros só faltaram 3 (Peru, Suriname e Guiana). A atual presidência do Chile fez a reunião se dar em Santiago.
A declaração formal de apoio a Morales e o repúdio a golpes foi trivial. Espero que decisões secretas mais efetivas tenham também ocorrido, e só venham a furo no futuro.
O drama fundamental boliviano já foi descrito em “Pontos de Vista” anteriores.
Em resumo podemos dizer. O primeiro presidente índio em um país de maioria indígena, teria mesmo que enfrentar pesados problemas políticos.
O fato da Bolívia ser topologicamente dividida em 2 áreas bem definidas, os Andes e a planície do rio Paraguai, por si só cria um antagonismo. Por fim, se os quéchuas e aymarás formam uma maioria nos Andes, são minoria na Planície. Além disso, a riqueza econômica do país está na Planície. A conclusão lógica é o desejo de maior autonomia para os 4 departamentos da Planície (Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija). Como essa autonomia já foi aprovada em plebiscito nas 4 províncias, a controvérsia já está posta. Some-se a isso a nova Constituição aprovada pela maioria que Evo possui na Câmara, mas que a oposição minoritária não aceita e pronto, temos um “prato feito” para mais uma das centenas de “explosões internas” que perseguem a Bolívia desde sua fundação, quando Bolívar e Sucre defendiam idéias diferentes para a formação do novo país.
A única novidade agora é a existência da Unasul, recém fundada, que poderia votar uma decisão que legitimasse uma solução de força, que mesmo que altamente indesejável, pode ser a única saída, caso Evo não consiga acertar os interesses políticos contraditórios internos.
Não deixa de ser curioso lembrar que o próprio Evo Morales chegou ao poder numa insurreição popular, tendo mesmo ameaçado seus oponentes nas eleições caso não fosse sufragado.
Parece-me meridianamente claro que falta a Evo o que sobra em Lula: jogo de cintura...
* Escritor
- JSO: - 20 de setembro de 2008