Sócrates e a Multidão
* Pedro Sérvio
Apesar de Sócrates ser um grego, quiçá o mais gregos dos gregos, e da democracia ser um dos legados mais conhecidos da civilização grega, o fato positivo é que Sócrates não era um democrata.
Menos democrata ainda era seu discípulo Platão, que no diálogo “A República” oferece como padrão perfeito de governo a tirania. Isso mesmo, o tirano, naturalmente na condição de ser um filósofo seria o que haveria de mais alto nível no que diz respeito ao governo da polis. Essa postura não democrática não era apenas em teoria, Platão chegou a ajudar o tirano de Siracusa, no anseio de ver suas idéias postas em prática.
A influência das idéias de Sócrates sobre Platão insiste forte contra essa mentalidade de deixar que muitos decidam. A natural propensão humana de seguir a um líder, de deixar suas idéias e ambições pessoais de lado, de avançar bovinamente sem duvidar, evitando exercer o direito que Sócrates tanto prezava de pensar por si só, merece do mestre de Platão o total repúdio.
É pensando com a própria cabeça, enfrentando os dilemas que vão aos poucos aparecendo à medida que se avança no processo filosófico, que se obtém a única e verdadeira liberdade disponível ao homem. Isso é vedado às multidões, aos grandes agrupamentos humanos, que são mais facilmente movidos por fortes emoções que por ponderadas razões, ainda que linearmente apresentadas.
Talvez o maior exemplo que pode confirmar essa tese tivesse que ser esperado por mais de mil anos do tempo de Sócrates e Platão. O mundo inteiro, a maior multidão que é possível imaginar, via o Sol nascer no oriente, avançar sobre o céu até o zênite e então se por no ocidente. O senso comum não tinha a menor dúvida do que estava de fato acontecendo, pois era um fato corriqueiro, testemunhado por qualquer um e que vinha assim acontecendo há milênios. No entanto havia apenas um homem, Nicolau Copérnico, que após usar a mente e analisar profundamente a questão, afirmava não ser isso o que estava acontecendo. Na verdade, contra toda a evidência tangível, o Sol estava parado e a Terra, também contra tudo aquilo que dizia nosso senso comum, é que estava em movimento.
Sócrates deve ter sorrido em seu túmulo e pensado: a multidão é cega, tola e ignorante!
A ênfase do ensinamento Socrático, mais que contra a multidão é a favor do indivíduo e da sua capacidade de avançar aos poucos da “doxa” (opinião) até a “episteme” (conhecimento).
O processo de diálogo (dialético) promove o encontro de idéias e contra idéias, de teses e antítese. Esse avanço é praticamente sem fim, permitindo por um lado que se esclareça pouco a pouco o conhecimento, mas impedindo por outro lado que se chegue a um ponto final, onde o processo dialético se interrompa.
Sendo essa a quintessência da técnica filosófica de Sócrates e sendo impossível que tal processo se materialize com uma multidão, fica claro o interesse Socrático nas pessoas enquanto indivíduos e seu pouco apreço pelas multidões.
- Pedro Sérbio - Escritor
- JSO: - 21 de maio de 2009