SOFÍSTICA
* Pedro Sérvio
A sofística, em ultima instância, afirma não ser possível a redução da realidade ao universo lingüístico
Os sofistas afirmavam que a língua é por demais restritiva e, ao tentar criar uma teia intelectual que "pesque" o real, sempre deixará passar muita coisa, e o que for "pescado" será inevitavelmente mais pobre que a realidade. A realidade é formada por "plânctons" e não existe rede que os pesque. No entanto ao ser recolhida, a rede trará muitos desses “plânctons” (fragmentos do real) presos às cordas e nos enganará duplamente; primeiro por confundirmos o pouco real que acessarmos com o todo e, principalmente, por confundirmos a estrutura do real pescado com a estrutura da rede usada.
A experiência do real seria, pois, inefável e qualquer "conhecimento" será falso por definição. Do real apenas se "sabe" (como em "sabor"). Nada além da fruição é possível. Repetindo, para os sofistas todo conhecimento é, basicamente, falso.
No entanto essa falsidade não é absoluta. Existem "teias intelectuais" melhores e piores.
Pode-se manipular o real através desses pseudo-conhecimentos. Dessa forma, em essência, o pragmatismo passa a ser a lei áurea do processo cognitivo. Quanto mais “plânctons” forem trazidos melhor, ainda que a estrutura da rede seja sempre a mesma.
Um epítome dessa tese é a mecânica quântica, pois prevê resultados mensuráveis que são corroborados pela experiência e permitem manipular o real. No entanto a teoria não pode ser "compreendida", pois ignora uma série de "aparentes contradições", oriundas da metafísica objetiva, Aristotélica, que permeia toda nossa percepção ocidental, ainda que não estejamos conscientes disso. Nem o mais ferrenho Aristotélico pretende “entender” a mecânica quântica; ela é apenas uma ferramenta eficiente para manipular o real.
Até o chamado positivismo lógico, a crença basilar que funda o espírito ocidental, se apóia , em última instância, nos critérios de significação, o que é pura metafísica.
O universo gerado por esses "conhecimentos" nunca será "real", apesar de, possivelmente, guardar algum tipo de relação com ele. O próprio conceito de real nunca poderá ser, ele mesmo, real.
Nosso “Real” é um tipo especial de ilusão que temos, não definível, onde a intelecção é mínima e totalmente submissa a nossa crença metafísica básica, portanto, a deformação que ela promove também é mínima e compatível com essa crença..
Para o homem comum, com sua sensibilidade abafada por essa teia intelectual milenar que "pauta" o real, o acesso ao mesmo está quase sempre vedado.
Êxtase é o que lhe parecerá o estado de conexão não intelectual com o real.
Se uma pessoa encosta o dedo despercebida sobre a chapa quente de um fogão, reagirá imediatamente a esse contato direto com o real. Mas no milésimo de segundo seguinte trará à consciência toda uma rede de conceitos pré-organizados e pensará em termos de dor, fogão e calor. Apenas durante o micro segundo em que agir sem análise terá estado em contato direto com o real.
A fruição estética é também um momento de contato com o real, mediada por emoções sutis, quase sempre interrompidas por um algum tipo de análise, pois a mente consciente fica de tocaia, pronta a roubar a cena à menor vacilação.
O orgasmo sexual pleno só é possível (segundo Reich), quando, próximo ao clímax, os parceiros perdem a consciência de si e o controle da musculatura pélvica. A descarga da libido que se segue, define a potência orgástica, que só assim se manifesta "realmente". Quem a experimenta a descreve como êxtase.
Nossos pseudo-orgasmos, reprimidos pela educação autoritária, nos mantém conscientes o tempo todo, e o que é pior, muitas vezes até mesmo "imaginando" situações diferentes das que estamos vivendo no ato em si, ou observando-nos nos espelhos.
Esse "pensar sobre" equivale a tirar o olhar da estrada para checar no mapa se estamos mesmo onde pensamos estar. Pensar o real desfigura-o. Mesmo observá-lo desfigura-o.
Nossa rede intelectual é um mapa do território real, útil e limitado, como todo mapa.
Nunca confundir o mapa com o território!
Não se pode ter consciência do real, podemos apenas analisá-lo “a posteriori”, pensar sobre ele já desfigura-o.
"Le moment ou je parle est deja loin du moi" (o momento em que falo já está longe de mim).
Imagine um avião navegando por instrumentos, no meio de um nevoeiro, e aproximando-se do Santos Dumont. O piloto não tira os olhos dos instrumentos enquanto pilota, ou então entrega o avião ao piloto automático, controlado por computadores. Assim somos nós “voando” na realidade. Os dados fornecidos pelos instrumentos, equivale as palavras que usamos para nos comunicar. A fruição direta do real exigiria que trocássemos o avião moderno, abandonando todos seus instrumentos sofisticados, e pedíssemos emprestados à Santos Dumont o seu “Demoiselle”. Só nesse caso voaríamos realmente; no caso atual quem realmente voa é o avião, não nós mesmos.
Essas são as bases que levaram os sofistas a concluirem que a linguagem, não sendo critério de verdade, mas apenas ferramenta de uso quotidiano, sua máxima utilização seria um tipo de retórica convincente, que seria apenas pragmática e nos auxiliaria a obter o que queremos (pousar o avião).
As técnicas utilizadas para esse fim foram estudadas, desenvolvidas e ensinadas, mediante pagamento. Platão se insurgiu contra isso, apesar de nunca ter vencido nenhum sofistas profissional numa discussão aberta. Como os sofistas nunca se preocuparam em escrever teses defendendo a veracidade de sua posição, pois isso seria uma contradição nos termos, ficamos até hoje apenas com a filosofia (filo-sofia) proposta por Platão, cujo próprio nome já indica uma posição, de certa forma, sofística, pois significa uma “aproximação” ao saber, e não o saber em si. De fato, a técnica dialética utilizada, nos faz “dançar” em volta das idéias, sem nunca a alcançarmos, uma vez que, no mito platônico, não temos acesso direto às idéias puras, mas apenas ao seu reflexo, projetados no fundo da caverna intelectual que habitamos.
Para concluir e sermos mais expressivos e menos abstratos, contemos a famosa anedota sofística, onde a essência dessa forma de entender a realidade fica explícita de uma maneira leve.
A anedota sofística
Um mestre em sofística é procurado por um pobre ateniense, ansioso por aprender a bem usar a retórica e transformar-se num argumentador profissional, imbatível em qualquer discussão honesta e aberta.
No entanto o preço cobrado pelo mestre era muito alto e, apesar de possuir a quantia para o pagamento, temia não ser capaz de atingir aquela “sofia”, devido suas limitações intelectuais e pouca erudição.
Para incentivá-lo, o mestre propôs o seguinte acordo:
- Meu jovem, prometo-lhe dedicar todo meu tempo e capacidade pedagógica e, se ao final de um ano, você não for capaz de me vencer em uma argumentação, não precisará pagar pelos meus serviços, pois o mesmo não terá atingido o que pretendia.
O dinheiro relativo ao pagamento será entregue a meu feroz inimigo Platão, que assistirá nossa discussão final e decidirá quem foi o vencedor; sendo ele perfeitamente capaz de perceber qualquer desonestidade intelectual que um de nós dois quiser porventura utilizar em nossa dialética. Além de ser insuspeito quanto a mim, porque não concorda com minhas teses.
A condição que eu imponho é que me caberá escolher o assunto a ser discutido, enquanto a você caberá decidir se prefere defende-lo ou atacá-lo; eu tomarei a posição oposta a sua.
Após pensar alguns minutos o rapaz achou que era válida a proposta, procurou Platão que aceitou a incumbência de árbitro e guardou o dinheiro do pagamento do rapaz.
Passado um ano, no dia acordado, os três se reuniram na bela residência de Platão, sobre os seus tapetes, sujos e tornados famosos por Diógenes. Platão pediu ao sofista que escolhesse um tema. O tema proposto foi:
É justo que eu receba pelo meu trabalho de um ano. Meu aluno, pois, irá me pagar, independente de nosso acerto anterior e do resultado dessa discussão.
Platão, totalmente tendencioso a favor do jovem, já estava pronto para pedir ao aluno que escolhesse sua posição, defender ou atacar o tema, quando percebeu o dilema em que se encontrava.
As posições logicamente possíveis eram:
Se o jovem escolhesse defender a idéia e ganhasse, deveria pagar sem pestanejar.
Caso perdesse, surgiria o primeiro dilema para Platão.
Tendo perdido o rapaz não precisava pagar.
Contudo, ter perdido implicava em pagar, pois essa era a essência da discussão, que havia se imposto como verdade (pagar mesmo tendo perdido).
Se o aluno escolhesse atacar a idéia e ganhasse, a situação era clara. Tendo ganho o jovem precisaria pagar. Além disso, a tese de que ele deveria pagar em qualquer circunstância cairia, mas não cairia a tese de sendo vencedor pagar.
Se perdesse a discussão, o rapaz não precisava pagar a dívida.
Contudo, outro dilema aguardaria Platão. Tendo perdido, vencia a tese que afirmava ter que pagar mesmo tendo perdido.
Irritado, Platão entregou o saco de moedas ao rapaz, sem ao menos dar-lhe chance de argumentar, e disse ao sofista.
- Dessa vez você finalmente perdeu, pois apesar de, como sempre, ter criado uma situação em que acaba tendo razão mesmo estando errado, teve a infeliz idéia de me aceitar como árbitro e eu, arbitrariamente, declaro o jovem vencedor.
Com toda sutileza lógica que você quis cercar minha decisão, contraditória em quase todas as opções possíveis, e lógica apenas nas hipóteses que lhe interessam, é claro ao meu espírito onde está a justiça na situação concreta à minha frente.
Nunca esse jovem poderia em tão pouco tempo ser ensinado a essas cavilações que vocês sofistas amam, e você sabia disso perfeitamente antes de começar e armou mais uma das sua arapucas retóricas.
O sofista, sorriu e respondeu.
- Naturalmente eu previa esse resultado quando o escolhi como árbitro e devo dizer que aceito sua decisão, que a mim parece razoável, ainda que não totalmente justa. Não era em absoluto minha intenção demonstrar, mais uma vez, a inutilidade das palavras e dos discursos lógicos, inclusive esse, quando tentam dizer a justiça, a verdade ou mesmo descrever a realidade.
Usando a dialética, que você e seu mestre Sócrates tanto prezam, ou mesmo essa nova lógica formal que seu discípulo Aristóteles tenta nos convencer, nunca chegamos a lugar algum, apenas nos aproximamos de algo que se nos afasta sempre: a verdade.
Armei sim uma arapuca, mas para você e não para o jovem. Sua decisão foi a única possível a um homem íntegro e inteligente como você, mas que detesta a sofística. Serviu para confirmarmos, mais uma vez, a outra tese de nosso mestre Protágora, que você tenta inutilmente negar:
- O homem é a medida de todas as coisas !
Nesse caso concreto, como você mesmo descreveu, “você foi a medida das coisas”, e afirmamos ser sempre assim. Ainda que não possamos demonstrar com palavras a idéia acima, podemos mostrar em quantos casos concretos forem surgindo.
Existe em nós uma lógica mais profunda que nos permite ir direto à verdade, passando por cima de toda a dialética ou formalismos e impondo-se a si mesma de forma inelutável ao nosso espírito, e isso, Platão, você ainda não alcançou.
Essa lógica é a lógica de Parmênides. Nós somos o que somos e as coisas são o que são, enfim o que é, é. Ou, indo abeberarmos no próprio eleata:
O ser é e o não ser não é.
Platão, ainda que um pouco mortificado, continuou o diálogo afirmando:
– De qualquer forma, caro amigo, você perdeu pelo menos a aposta, pois não irá receber o dinheiro do ano em que lecionou. Pelo menos terei o prazer de afirmar que você finalmente trabalhou de graça. Afinal, o jovem aprendeu algo do seu ensinamento, ainda que eu ache que ele estaria melhor se nada houvesse aprendido.
- Bem, inventor da filosofia, eu pretendia parar por aqui, mas agora devo continuar a conversa, que era apenas para ser parte do ensinamento de meu aluno, e seria feita após sairmos de sua casa, para não incomoda-lo.
Como sabia de antemão o findar dessa operação já ao propor-la no ano passado, apostei também com outro aluno meu, rico e mais adiantado em sabedoria, que faria você, Platão, vencido pela lógica dialética e pela formal, oriundas de seu mestre Sócrates e seu discípulo Aristóteles, apelar, ainda que sem perceber, para a lógica transcendental de Parmênides, e afirmar a sua verdade com base apenas nela mesma. - É justo, porque eu acho justo.
Meu outro aluno, capaz de entender a sutileza de minha tese, duvidou que você fosse tão previsível e fizesse isso. Apostou comigo o dobro do valor que cobro de aula para neófitos. De forma que ao perder para você, na verdade ganhei o dobro, graças a fácil antevisão de suas atitudes.
Assim consegui que o rico pagasse pelo pobre e eu desse uma lição concreta aos três, independente das discussões dialéticas e formalidades intelectuais a que estamos obrigados na frágil comunicação humana.
- Note que não sujei seu tapete como Diógenes. Vou buscar o meu dinheiro que ganhei com justiça.
O sofistas virou as costas para o grande filósofo dizendo:
- Tenha um bom dia Platão.
- Vamos rapaz.!
- Pedro Sérbio - Escritor
- JSO: - 06 de setembro de 2009