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Por que PT e Lula não investigaram as privatizações do governo FHC ?

 

* Marcelo Castañeda

 

Esse artigo não visa estabelecer verdade alguma, mas tão somente estabelecer parâmetros para reflexões sobre um dos possíveis motivos pelos quais o presidente Lula e o seu atual partido, o PT, não tocaram na ferida tucana das privatizações como prometeram e ameaçaram na campanha de 2002. Digo atual partido, porque é forte a tendência de formação de um partido de "centro", que agregaria figuras como Lula, Sarney, Requião, Quércia e Calheiros, entre outros.

São nítidos ainda em minha memória os protestos, alguns coléricos, como os do atual candidato a governador de São Paulo pelo PT, bem como da maioria da bancada petista na Câmara dos Deputados, durante os oito anos do governo de FHC, contra as suas várias privatizações. Não quero aqui dizer que os protestos eram sem sentido e que todos os que protestavam podem ser incluídos no tipo de argumentação que será desenvolvido a seguir. De forma alguma é minha intenção.

Posso dizer que alguns membros da Executiva do PT na época já tinham fortes raízes, grande parte de ordem familiar, ou ligações com a elite paulista. Devo, por prudência não citar nomes, tendo em vista que o que levantarei é uma hipótese que pode ser facilmente comprovada por qualquer investigação séria que se proponha a tal. Como sou muito pequenininho e prezo pela minha vida, deixo claro que é uma simples e coerente hipótese.

O Partido dos Trabalhadores, ao mesmo tempo que berrava em Brasília, tinha o controle da gestão dos principais fundos de pensão, sendo que, de meu conhecimento, só posso falar pela Previ, que tinha em sua diretoria na época uma maioria petista, funcionários de carreira, sindicalistas, que conduziam onde investir o dinheiro dos futuros aposentados, tendo em vista que a Previ foi fundada em 1968 e, com o tempo de aposentadoria em 30 anos na época, os primeiros beneficiários do fundo de pensão estariam começando a receber seus proventos em 1998.

A Previ - assim como outros fundos de pensão: Petros, Refer, entre outros -, aplicaram, nesse período que vai de 1968 a 1998, as contribuições dos funcionários do Banco do Brasil em investimentos que não obtiveram o retorno esperado para garantir a sustentabilidade necessária a fim de efetuar o pagamento de aposentadorias no futuro.

Um exemplo: em 1996, em encontro que eu estava presente com a direção de investimentos da Petros, grande investidora em Shoppings cariocas falidos já naquela época, como o Via Parque, o diretor na época declarou que se pudesse explodiria o empreendimento devido aos seus seguidos déficits e conseqüente falta de rentabilidade necessária. Tendo em vista que estava com 19 anos na época, isso me abriu os olhos.

Onde quero chegar ? Esses fundos estavam trabalhando com dinheiro de funcionários públicos e precisavam de elevadas taxas de rentabilidade em curto espaço de tempo para não serem acusados de lesar milhares e milhares de funcionários públicos que depositaram sua confiança de uma aposentadoria tranqüila nos fundos de pensão das estatais onde trabalhavam. Estou citando o caso da Previ porque foi o fundo de pensão mais atuante nas privatizações do Governo FHC, em especial na área de telefonia. O Daniel Dantas é bandido sozinho nas Telecons ?

A diretoria de maioria petista na Previ optou por uma estratégia simples: alguns líderes petistas, também com fortes interesses na questão, elevariam o tom das críticas e protestos, e nisso a bancada como um todo embarcou por acreditar que estava dentro de uma proposta ideológica de combate ao paradigma neoliberal, talvez sem perceber esses bastidores. O que aconteceria ? Fortes investidores estrangeiros se afastariam, o que de fato aconteceu, e o valor das empresas a serem privatizadas cairiam, o que também aconteceu. As expectativas se concretizaram.

A Previ é acionista de grande parte das empresas privatizadas, assim como outros fundos de pensão também têm sua participação. Acontece que se o governo Lula e o PT investigarem as privatizações de forma séria, o que no Brasil não aconteceria, vide as diferentes fracassadas CPIs, essa estratégia apareceria e isso não seria em nada interessante para um governo e um partido já envolvidos em tantos escândalos de corrupção, negociatas e bastidores inescrupulosos.

Esse artigo não é uma defesa do governo FHC, muito menos de privatizações que dilapidaram anos de investimento do povo brasileiro, tais como a Vale do Rio Doce, em cujo leilão muito apanhei, a CSN, e outras mais. FHC foi a porta de entrada do neoliberalismo no Brasil. Lula, ainda no PT, lhe deu continuidade sem privatizar porque nesse ponto já estava tudo feito pelo antecessor. Mas a receita neoliberal continua sendo aplicada e quem sofre é o povo brasileiro.

NF: 06 de julho de 2006

* Marcelo Castañeda é Cientista Social - marcastara@yahoo.com.br












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