Por dentro de Nova Friburgo
Uma interpretação
da violência em Nova Friburgo
*Marcelo Castañeda
A violência cresce em Nova Friburgo
e assusta os cidadãos. Essa afirmativa é lida ou vista nos meios de
comunicação local com certa freqüência nesse ano de 2006. Um Conselho
Comunitário de Segurança foi implantado na cidade. Mas o que está
sendo feito para entender criminalidade e violência em Nova Friburgo?
A percepção de medo dos cidadãos friburguenses acontece de fato?
Podemos falar de um aumento da sensação de insegurança somente pelos
números disponíveis? São perguntas que eu gostaria muito, sinceramente,
de ter as respostas, mas não tenho. O que vou apresentar aqui são
dados, interpretações e mais perguntas para que, num esforço coletivo,
a sociedade friburguense tente encarar de frente seus problemas na questão
da criminalidade e violência.
Primeiramente, vou expor alguns dados
disponíveis ao público na página do ISP-Instituto de Segurança Pública
da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro - www.isp.rj.gov.br
- Antes da exposição é importante destacar que esses números não
explicam muita coisa e, por vezes, até complicam. O sociólogo Michel
Misse do Núcleo de Cidadania, Conflitos e Violência Urbana da UFRJ,
especialista no assunto, me afirmou que já temos informações em excesso,
mas faltam analistas para a extensa base de dados disponível, que os
interessados podem acessar. Vamos aos números do período de Janeiro
a Abril dos anos de 2004 a 2006:
| Ocorrência
de Delitos - Janeiro a Abril - |
2004 |
2005 |
2006 |
| Homicídios |
9 |
25 |
14 |
| Lesão Corporal |
298 |
364 |
406 |
| Roubo a Estabelecimento
Comercial |
9 |
12 |
21 |
| Roubo a Residências |
5 |
5 |
7 |
| Roubo a Transeuntes |
29 |
21 |
29 |
| Roubo de Veículos |
5 |
6 |
19 |
| Furto de Veículos |
42 |
44 |
84 |
| Total de Roubos |
52 |
70 |
106 |
| Total de Furtos |
527 |
409 |
488 |
| Homicídio no trânsito |
Sem dados |
12 |
6 |
| Lesão corporal no
trânsito |
Sem dados |
159 |
154 |
| Ameaças |
Sem dados |
457 |
529 |
OBS: O total de roubos e furtos se
relaciona a todas as ocorrências e não ao somatório das que estão
relacionadas na tabela acima.
Importante destacar que a atuação
policial apresenta os seguintes números:
| Atuação
policial (Janeiro a Abril) |
2004 |
2005 |
2006 |
| Apreensão de Drogas |
42 |
19 |
52 |
| Apreensão de Armas |
54 |
49 |
52 |
| Recuperação de
Veículos |
Sem dados |
19 |
61 |
A interpretação dos números relacionados
às ocorrências destacadas, que geram insegurança na população por
se tratarem de crimes contra a vida e o patrimônio, é exposta nos
itens abaixo:
1 - Se há insegurança, o que para
mim é difícil avaliar, tendo em vista que morei 28 anos na cidade
do Rio de Janeiro, devendo ser verificado por um estudo específico
nesse sentido, pode ser porque está aumentando o número de ocorrências
relacionadas a crimes contra o patrimônio e contra a vida. Apesar de
ser comprovado que em lugar algum do mundo se registra tudo que ocorre
de fato (nos EUA somente 36% das ocorrências viram R.O., sendo que
na América Latina a notificação fica em torno de 20%), vamos considerar
os dados objetivos que temos em mãos. Pode-se dizer que o número de
homicídios no período janeiro-abril caiu em relação a 2005, mas
se olharmos o número de 2004, podemos perceber um aumento considerável.
Vale lembrar que a violência e sua percepção são processos sociais
que combinam fatores objetivos, quantificáveis e subjetivos, não mensuráveis.
Mas foi a única queda: o número de furtos de veículos no período
janeiro-abril foi a soma do mesmo período dos anos de 2004 e 2005,
o mesmo se dizendo do número de roubos de estabelecimentos comerciais;
o roubo de veículos explodiu para o triplo do mesmo período dos anos
anteriores; subiram as ocorrências de lesões corporais e ameaças.
Outra questão importante numa análise da criminalidade e violência
em cidades como Nova Friburgo é que uma série histórica estatística
não seria de muita utilidade tendo em vista que o município possui
pouco mais de 100 mil habitantes, sendo essa série significativa, em
análises da criminalidade e violência, para cidades acima de um milhão
de habitantes.
2 – Chama atenção o elevado número
de mortes e lesões corporais no trânsito.
3 – Não espanta que a polícia tenha
aumentado apreensões de drogas e armas e recuperação de veículos
em 2006. Mostra que está tentando fazer o papel de reprimir e investigar,
mas isso não está gerando diminuição das ocorrências registradas,
fenômeno que deve ser estudado com mais detalhamento.
Como está reagindo a sociedade? Não
posso generalizar afirmações nesse sentido para toda sociedade de
Nova Friburgo, mas vamos considerar que a criação do Conseg-Nova Friburgo
foi uma reação da sociedade à onda de violência durante o ano de
2005.
O Conseg-Nova Friburgo é, até agora,
apenas uma reação imediatista e elitista de parte da sociedade de
Nova Friburgo quando, na minha visão, deve aproximar-se das bases comunitárias,
enquanto instituição que pretende atuar como instrumento da sociedade
civil, através de estratégias planejadas, com prioridades e metas
definidas a partir de diagnósticos, o mais precisos possíveis dos
problemas a enfrentar relacionados a criminalidade e violência.
Estamos em meados de julho e não foi
dado um passo no que se refere ao diagnóstico da criminalidade e violência,
muito menos a criação de um plano municipal de segurança em conjunto
com a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo. Fica parecendo que há
uma disputa de correntes políticas entre quem está no Conseg-Nova
Friburgo e na Prefeitura, com melindres que se refletem na insegurança
da população. Vou citar um exemplo: quando ainda estava fazendo parte
da estrutura do Conseg-Nova Friburgo, identifiquei uma verba de R$ 150
mil disponível na SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública
do Ministério da Justiça) referente a convênios com municípios para
desenvolvimento de ações preventivas relacionadas à criminalidade
e violência, que teria sido destinada a Prefeitura Municipal de Nova
Friburgo condicionada a sua liberação à apresentação de projeto
pela Prefeitura. Isso se passou em abril. Passei o caso para a Diretoria
do Conselho. Passei também a informação para o Conseg-Maringá (que
serviu de modelo para o daqui) no mesmo dia.
Em três dias, o diretor de Maringá
me enviou um e-mail, agradecendo a informação e que eles já tinham
firmado compromisso com a prefeitura local para fazer uso conjunto dos
R$ 132 mil disponíveis para Maringá - PR. Passou o tempo e, até hoje,
parece que Nova Friburgo não terá esse investimento do Governo Federal.
Se eu estiver enganado, gostaria de ser corrigido por algum representante
do Conseg-Nova Friburgo ou por quem for de direito da Prefeitura Municipal
de Nova Friburgo. Culpa da política? Não. Culpa das pessoas que pensam
estarem fazendo política e estão fazendo besteira, pois política
também é dialogar com as correntes opostas na busca do bem social
comum. Quem agüenta? A população. Quem tem renda para pagar segurança
privada vai se preocupar com insegurança social? Mas quando começam
a assaltar estabelecimentos comerciais, além do seguro, há possibilidade
de ser atendido pelas excelentes empresas que prestam serviços de segurança.
O que fazer diante desse quadro? Primeiro
precisamos entender essas ocorrências, suas motivações, os principais
locais de incidência, estabelecer prioridades de ação através de
um diagnóstico da criminalidade e violência que não se restrinja
às ocorrências já que muitos não registram ocorrências, por exemplo,
em casos de estupro. Propostas não faltam para executar o diagnóstico.
Muito se alega quanto à disponibilidade de recursos para tal, mas tenho
minhas dúvidas. Do que consigo ver, andando nas ruas de Nova Friburgo
é que o tráfico e uso de drogas acontecem na Praça Getúlio Vargas
e arredores à luz do dia; que, se houve realmente o alardeado crescimento
econômico de 10% no município em 2005, houve concentração e não
houve distribuição de renda, gerando exclusão e isso pode estar refletindo
no aumento de ocorrências criminais; que a participação do poder
público municipal e estadual no que se refere à prevenção de criminalidade
e violência está baixa, muito aquém das demandas que a realidade
apresenta. As ações repressivas vêm acontecendo e os números vêm
subindo. Não é esse o caminho, isso posso afirmar. Temos que partir
para a inclusão social e ações preventivas, depois de entender o
problema, pois, caso contrário, o mesmo só aumenta.
* Marcelo Castañeda
é Cientista Social
12 de julho de 2006
- marcastara@yahoo.com.br