Por dentro de Nova Friburgo
Nova Friburgo
A Criação de Nova
Friburgo
* Marcelo Castañeda
As Origens de Nova Friburgo:
- O Brasil nos primórdios
do século XIX:
A ocupação do território
brasileiro era irregular, sendo que, no século XVIII, o eixo econômico
se deslocou do Nordeste para o Sudeste, devido à exploração do ouro.
O Rio de Janeiro tornou-se o porto de escoamento da produção mineira
com o desbravamento do interior por estradas de ferro. Em fins do século
XVIII, com a decadência do ouro, intensificou-se a formação de fazendas
no interior, como no futuro distrito de Cantagalo. Os grandes proprietários
dominavam a escassa vida política das Vilas.
Nesse contexto desencadeou-se
a política de colonização estrangeira e formulou-se o projeto de
instalação da colônia de suíços na Vila de Nova Friburgo, fundada
em 1820, na expectativa de povoar e fazer prosperar uma região pouco
habitada.
- Imigração e
colonização estrangeira:
A originalidade do
projeto consistia na introdução do trabalho livre e na organização
social da pequena propriedade. A contratação de imigrantes reforçava
a tradição colonial que identificava “civilização” com a Europa
e menosprezava o trabalhador nacional, considerado indolente e pouco
motivado.
- Um projeto inovador:
A proposta de concessão
de terras para instalar colonos suíços partiu da Suíça, em 1817,
mais especificamente do Cantão de Fribourg, na pessoa de Nicolau Sebastião
Gachet. Inicialmente, fora cogitado um local na região de Santa Catarina,
mas escolheu-se uma área na região serrana fluminense.
Fora estabelecido um
limite de 100 famílias, a naturalização dos imigrantes e a direção
da colônia por autoridades portuguesas, sendo exigidos que fossem todos
católicos.
Na proposta, o Estado
assumia o financiamento da travessia atlântica e o translado para o
local escolhido, a doação de sementes e animais, além da construção
de casas. A gestão, nessa época, ficou a cargo do Monsenhor Pedro
Machado Malheiros Miranda.
- Os emigrantes:
A posse da terra era
o sonho dos suíços. A boa receptividade na Suíça dos planos de Gachet
explica-se pela questão econômica e social, sendo que 5 mil suíços
se candidataram. No fundo, era uma forma dos governos cantoniais se
livrarem dos elementos indesejáveis.
Os emigrantes eram,
em geral, pobres e desempregados, muitos vivendo de assistência pública,
também havendo casos de presidiários. O caráter familiar se reflete
no fato de que metade do conjunto era formado por crianças com menos
de 10 anos. O contingente era formado por agricultores e artesãos.
Saíram de Estavayer
em 04/07/1819. Ao invés de 100 famílias, vieram 261. A “Terra Prometida”
revelou-se uma passagem por terrores decorrentes do desprezo à vida
humana e pela ação manipuladora dos agentes do transporte: (1) os
emigrantes arcaram com despesas dos pousos; (2) a enorme carga embarcada
em detrimento do espaço dos colonos; (3) eram navios à vela superlotados,
sendo dois deles sem cobertura; (4) doenças e mortes, que ceifaram
famílias e geraram órfãos.
Chegaram ao Rio de
Janeiro entre Novembro de 1819 e Fevereiro de 1820, com uma mortandade
de 20% do total que embarcou na Suíça e cerca de 300 órfãos. A marcha
para o sertão seguia com a mortandade e demorou 12 dias. O transplante
dos suíços pode ser comparado ao tráfico negreiro, com perda de vidas
e bens materiais; inúmeras desilusões e engodos, restando o consolo
de terem sido os agentes da operação desmascarados.
A Organização no
Brasil:
- Preparação do
terreno:
A mobilização de
recursos se deu através de empréstimos aos detentores de grandes fortunas.
A pouco produtiva Fazenda do Morro Queimado foi o local escolhido. O
governo comprou quatro sesmarias, incluindo as benfeitorias e escravos
existentes. Também comprou mais duas fazendas: São José e Córrego
D’ Antas.
A escolha do local
e os custos envolvidos na operação foram objetos de críticas, que
acusam o Monsenhor Miranda de promover gastos exagerados, estimados
em até 20 vezes o valor da fazenda. Além disso, existiriam terras
mais favoráveis à agricultura.
A maior parte da infra-estrutura
básica teria que ser construída pelos próprios suíços, mesmo tendo
encontradas prontas as 100 casas e a sede da Administração Colonial.
- Antecedentes brasileiros:
O momento da chegada
dos suíços era marcado pela crise da tradicional economia exportadora
brasileira e a deterioração dos termos de troca no comércio externo,
com queda de 40% nos preços de exportação. Entretanto, havia um mercado
interno em franco crescimento, mesmo com graves problemas, como: (1)
dependência ao exterior na importação de produtos manufaturados e
alimentícios; (2) monocultura das fazendas abria espaço para segmentos
produtores de mantimentos, mas lançava a economia em crises constantes
(alta dos produtos alimentícios / peso na pauta de importações).
A distribuição de
sementes e animais para a colônia de Nova Friburgo mostra a expectativa
de crescimento da produção de gêneros alimentícios, que enfrentava
o problema da comercialização, controlada por grupos restritos, que
junto com o Estado, estabeleciam monopólio.
- Sertões do Leste:
Somente na segunda
metade do século XVIII é que o interior no leste da Capitania do Rio
de Janeiro foi devassado pelo colonizador, sendo, até este momento,
considerada “Área Proibida” e, no mapa do Sargento Leão, em 1787,
identificada como “Sertão Povoado por Índios Brabos”.
A região era foco
de atração para os que necessitavam de liberdade frente ao poder metropolitano:
refúgio de tribos indígenas (muitas delas deslocadas pelo avanço
do colonizador); quilombos (proteção contra os capitães-do-mato);
faiscadores e garimpeiros (liberdade de ação perante o fisco). Destaca-se
entre estes, o folclórico Mão de Luva, Manoel Henriques, objeto de
uma ação militar da Administração Colonial em fins do século XVIII
para combater o contrabando capitaneado por ele.
Assim, o governo assume
a exploração do ouro na região, mas em 1803 se convence que a lavoura
asseguraria maior rendimento, passando a distribuir sesmarias, estando
neste período a origem de Amparo, atual distrito de Nova Friburgo.
O produto destinado
a desempenhar o papel mais importante no século XIX foi o café. Após
a expansão para o Vale do Paraíba no início do século XIX, em 1817,
Cantagalo já era considerado um importante produtor. Assim, o povoamento
do interior fluminense esteve vinculado à expansão cafeeira. A instalação
da colônia de Nova Friburgo foi vital para ativar o Centro-Norte Fluminense,
sendo uma ponte entre a Corte e o interior.
Bem-vindos à Terra
Prometida
- Terra Prometida:
Caracterizada pelo
difícil acesso (desafio) e baixa temperatura (favoreceu adaptação),
a “terra prometida” apresentava condições apropriadas para a agricultura
e criação de animais. O relevo apresentava a Vila cercada de montanhas,
com morros dominando a paisagem. Apesar da dificuldade de acesso à
região, Nova Friburgo funcionava como entroncamento necessário de
vários caminhos.
- Presença indígena:
Os índios não foram
respeitados, ocorrendo a eliminação das tribos indígenas na área
cafeeira do Vale do Paraíba (Puris / Coroados / Guarus), refletindo
uma mentalidade de guerra em relação a estes povos.
Os índios habitavam
as florestas, apresentavam escassos conhecimentos de agricultura e sinais
de aculturação. Apesar da presença limitada, a influência indígena
na região foi assimilada pelos colonos, o que pode ser notado no nome
de determinadas localidades (Macacu, Macaé), em habitações com bambu
trançado, no uso da mandioca e na prática da coivara (queimadas).
- Presença negra:
Apesar das poucas pesquisas,
pode-se afirmar que houve a assimilação da ordem escravista pelos
suíços, sendo que as fazendas de café no Vale do Macaé possuíam
muitos escravos.
- A fundação de Nova
Friburgo:
Antes da distribuição
das terras, houve, por decreto, a transformação da Fazenda do Morro
Queimado em Vila, conferindo estrutura político-administrativa, onde
a administração colonial estava ligada ao poder central. Os homens
livres associavam o trabalho à escravidão, já que tiveram que executar
trabalhos forçados, principalmente em relação à infra-estrutura.
O governo municipal
foi constituído de forma não-democrática . Em 1820, a constituição
do governo municipal aconteceu com o preenchimento dos cargos pelo chefe
da força policial, Quevrémont. A Vila era um amontoado de 100 casas,
sem assoalho nem cozinha, janelas sem vidros e com abastecimento de
água proveniente de um poço na frente das casas. Eram 16 pessoas por
casa, as denominadas “famílias artificiais” de Gachet. Devido à
força tropical das águas, acontecia o alagamento e o chão das casas
era transformado em lama. Os alimentos caros e a subalimentação levaram
o médico Bazet a cuidar de 600 doentes (um terço dos que chegaram).
Em 6 meses, foram 131 mortes de suíços.
Em 23/04/1820, foram
distribuídas as terras, muitas em áreas elevadas de difícil acesso,
outras em área onde o cultivo era impossível. A má distribuição
de terras associada à dificuldade de vencer a mata e iniciar a lavoura
levou à desistência de inúmeros colonos, que buscaram novas terras
e ocupações, principalmente em Cantagalo, Macaé e no Rio de Janeiro.
Em 1825, o contingente de colonos era de pouco mais de 600 pessoas.
- Colonos e o Novo
Mundo:
Do equívoco de reproduzir
no Brasil a “superioridade técnica” dos europeus, os colonos suíços
foram obrigados a assimilar o modo de sobrevivência dos sertanejos,
utilizando os métodos tradicionais de criação e cultivo no Brasil.
A produção agrária se concentrou na mandioca e no milho, contrariando
as expectativas iniciais de cultivo de trigo, aveia e centeio. A produção
de queijos ganhou fama no Rio de Janeiro.
Os suíços vieram
preparados para uma economia pré-industrial e tinham familiaridade
com a indústria têxtil doméstica. Entretanto, os colonos que permaneceram
optaram pela produção agrícola para subsistência devido à dificuldade
de transporte, se tornando, em sua maioria, lavradores. Houve a formação
de núcleos marcados por relações de parentesco, com grande intercruzamento
familiar.
No “tempo dos antigos”,
as atividades eram realizadas em contato direto com a natureza, identificada
com Deus e a racionalidade da vida social não estava orientada para
a acumulação material.
A pequena produção
mercantil de alimentos assegurava abundância e prosperidade aos descendentes
dos imigrantes em meados do século XIX: alguns se tornaram proprietários
de escravos, se inserindo no modelo cafeeiro, acumulando grandes fortunas
em Cantagalo e no Vale do Macaé.
Os projetos iniciais
de instalações de manufaturas não vingaram. A estagnação, técnica
e produtiva, associada à sobrevivência e reprodução social fomentaram
o povoamento da região e a economia rural baseada na pequena propriedade
e geraram, do ponto de vista ambiental, a preservação das matas e
da água muito superior às áreas cafeeiras.
Os aspectos nebulosos
a serem considerados:
1 - Como explicar o
descaso e os maus-tratos infligidos aos imigrantes, pelos próprios
organizadores do transplante?
2 - Teria sido resultado
do preterimento do projeto de uma empresa capitalista por Gachet que
o teria levado ao desinteresse pelo destino dos emigrantes?
3 - Ou simplesmente
uma forma usual de tratar os pobres e ainda por cima desterrados e sem
proteção oficial?
4 - Se havia real interesse
da monarquia portuguesa, tendo em vista os gastos realizados, por que
promover tão desastrada distribuição de terras?
5 - O passado independente
da região, com a presença de quilombos, índios, exploração e tráfico
de ouro, foragidos da justiça, não foi fator condicionante para a
criação de uma sede administrativa e de uma colônia gerida pelo Estado?
6 - A designação
de um agente do clero e de um militar para gerir a colônia não denotaria
que o objetivo de controle oficial se sobrepunha ao progresso e à felicidade
dos colonos?
Enfim, houve sempre
um divórcio entre palavras e atos, onde, se, de um lado, a importância
do projeto era proclamada, de outro, não havia simpatia por um projeto
que pudesse assegurar a prosperidade. Os colonos eram considerados mão-de-obra
a ser desfrutada por uma elite que só pensava o trabalho em termos
de escravidão numa sociedade submissa ao autoritarismo.
A experiência de Nova
Friburgo é vista como fracasso nos primórdios em relação à administração
portuguesa e imperial, onde os colonos foram tratados como escravos,
obrigados a trabalhos forçados, alojados em lotes que não respeitavam
a conveniência econômica e social. Além disto, a heterogeneidade
dos imigrantes e a inexistência de um ideal comum podem ter reforçado
o individualismo familiar em prejuízo da socialização. Desde o início,
marginalizados da capacidade de decisão, a agregação comunitária
se enfraqueceu, tornando-os colonizadores colonizados.
Fonte:
MAYER, Jorge Miguel. A criação de Nova Friburgo. In ARAÚJO, João
Raimundo & MAYER, Jorge Miguel (orgs.) 2003. Teia Serrana: Formação
Histórica de Nova Friburgo. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico.
* Marcelo
Castañeda é Cientista Social pela UERJ e coordena o Núcleo de
Pesquisas e Projetos Sociais da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia
em Nova Friburgo.
E-mail: marcastara@gmail.com
01 de novembro de 2006