POR DENTRO DE NOVA FRIBURGO
Nova Friburgo
Caro Paulo Roberto:
-"Não se trata apenas de botar a mão na massa!".
* Marcelo Castañeda
Não é meu costume entrar num debate
tendo observado apenas um dos lados em questão. Coloco, desde o início,
que não li o que foi escrito por Celso Novaes e que motivou a resposta
de Paulo Roberto de Souza em 22 de dezembro de 2006 em A Voz da Serra.
Entretanto pelo chamativo título e
pela temática em questão, segurança e Conselho Comunitário, mediante
a argumentação que li, resolvi sair do casulo e escrever esse artigo
que segue.
Encerradas as justificativas iniciais,
os que acreditam me conhecer esperam que surjam críticas e mais críticas
a partir daqui, tendo em vista os assuntos que venho abordando ultimamente.
Mas, farei diferente.
Iniciarei colocando que considero fundamental
um Conselho Comunitário de Segurança em Nova Friburgo que faça merecer
esse nome, que seja realmente comunitário. Admito que já não tenho
"coloco a mão na massa" no Conselho desde maio deste ano,
porém, me considero suficientemente independente, ainda, do ambiente
político local, para tecer análises parciais (pois são minhas), independentes
(do poder público e de segmentos empresariais) e que busquem estar
próximas dos setores que não tem voz na sociedade friburguense (sem
querer reviver Robin Hood, mas as comunidades normalmente têm
ficado de fora de processos teoricamente participativos).
Um Conselho Comunitário de Segurança
pressupõe, na minha visão, entender o problema (violência) sobre
o qual pretende agir – não confundir com reagir – e atuar de maneira
próxima à sociedade, ao lado dela, entendida não só como os empresários
e instituições "representativas", mas como os moradores
em geral do município de Nova Friburgo, dentro de suas particularidades.
Por que a questão da segurança se
torna importante hoje no município?
Primeiro ponto: Segurança é atrativo para novas empresas se instalarem no município. É atrativo, apesar
de não ser a única variável neste sentido: incentivos fiscais, infra-estrutura
de serviços públicos e privados também o são. Tenho minhas dúvidas
se o município de Nova Friburgo abrange essas variáveis de forma satisfatória.
Segundo ponto: segurança está ligada
à qualidade de vida da população, a sensações de insegurança,
ao direito de ir e vir no espaço público, entre outros aspectos.
O que me pareceu o Conselho Comunitário
de Nova Friburgo?
Participei da fase regimental, de definição
do estatuto e, hoje, a posteriori, posso dizer que percebi nas
pessoas que ali estavam um forte sentimento, uma enorme vontade de se
instituir uma espécie de governo paralelo como contraponto ao atual
poder público municipal. Um espaço de oposição. Mas isso, só se
percebe quando se está do lado de fora, convivendo e vivendo mais na
cidade e até no campo do município. Aliás, para não perder a oportunidade:
que Conselho Comunitário é esse que só atua na área urbana do município,
que é predominantemente rural na extensão territorial?
Mas, como trabalhar a questão da violência
e da segurança de forma a não estar sintonizado com o poder público
municipal? Não me diga que o vice-prefeito participa das reuniões,
pois participar de reuniões é algo diferente do que acredito ser "botar
a mão na massa". Até porque não acredito ser em uma reunião
mensal de duas horas que se pense estratégias de prevenção à violência.
Outra coisa que percebi: quais eram
as instituições "representativas" que acabaram por se estabelecer
enquanto diretoria? Os Rotarys Clubs, a OAB e a Maçonaria, com a exceção
da apresentadora televisiva e atuante membro da Pastoral Carcerária,
Myrthes Godoy, como Diretora de Comunicação. Antes, colocava-se animadamente
que o Conselho era composto de 31 instituições. Quantas estão hoje
ativamente, e mais, dentro dos padrões estabelecidos pelo regimento?
Pior das 400 pessoas que estavam no I Fórum de Segurança de Nova Friburgo,
quantas se engajaram efetivamente na estrutura formada pelo Conselho?
Essa desmobilização acontece, a meu
ver, pelo Conselho Comunitário estar centralizado em suas ações no
que a Diretoria e, mais ainda, o presidente decide fazer, raramente
com uma visão estratégica.
Guardo rancor de alguém do Conselho?
De forma alguma, tendo em vista que saí muito antes que pudesse guardar
qualquer tipo de ressentimento por pessoas que até hoje, quando nos
encontramos, temos uma conversa franca e sincera, daí eu não citar
nomes nas partes de crítica em qualquer dos artigos que escrevo, até
para não servir de trampolim para promoções pessoais às minhas custas
ou emulação do ego do citado.
Se hoje, escrevo e cito o nome de Paulo
Roberto de Souza é por ser a pessoa, daquelas que estavam no início
desse processo e que me parece estar até hoje, que mais encontro e
converso.
Entretanto, Paulo, a questão de serem
rotarianos os que iniciaram a discussão, traduz uma certa visão conservadora
(que deve também estar representada, afinal, faz parte da sociedade),
estratificadora de padrões sociais, que, por sua formação desde o
século XIX (falo do Rotary Club), impele muito mais ao assistencialismo
que às mudanças sociais.
Difícil acreditar que o Coronel Celso
Novaes acredite, de forma simplista, com toda experiência no combate
à violência, que tudo se origina no primeiro gole apenas, mesmo sendo
o alcoolismo um dos fatores responsáveis pela deflagração da violência.
Podemos tirar coelhos aleatórios de nossas cartolas, mas isso não
vai nos levar a lugar algum.
A questão dos bares deve ser diagnosticada
e não buscada pela intuição ou copiando diagnósticos como o de Diadema
(que amenizou a violência com o fechamento dos bares após 22 hs).
Celso Novaes é um bom nome para compor um projeto muito mais audacioso,
impactante e ambicioso: de implantar um sistema de policiamento comunitário,
de polícia-cidadã, projeto ele tem, acredito que tenha deixado uma
cópia com a Diretoria do Conselho. O que se fez com ela eu não sei.
Mas, queria perguntar:
1) - onde a questão dos bares está
identificada além das cabeças dirigentes do Conselho?
2) - onde estão os dados quantitativos
que o Instituto de Segurança Pública (ISP) disponibilizaria para o
Batalhão e para o Conselho?
3) - onde está o diagnóstico "gratuito"
(não há almoço de graça...) que o mesmo ISP da Secretaria Estadual
de Segurança Pública executaria (estou falando de maio deste ano)?
Nossa, quantos temas repetidos que
venho levantando constantemente...gostaria de saber se existem possíveis
respostas, se há possibilidade de diálogo.
Ignorar críticas, acreditar na fraca
memória da sociedade é uma das principais artimanhas do conservadorismo,
dos que se acham "manipuladores da realidade" e de todo um
pensamento autoritário. A realidade muda o tempo todo, existem os que
são resistentes e estão, a todo momento, dispostos a marcar posição
e estar rememorando, pelo menos isso, principalmente quando agir não
é possível.
Então, Paulo, "botar a mão na
massa" para que e como? "Botar a mão na massa" por idéias
tiradas de onde não estão os principais sofredores do ônus da violência?
É complicado, meu amigo, muito complicado. Digo que não voltei a doar
uma certa energia que ainda me resta ao Conselho por essas questões
ainda continuarem nebulosas. Logo, continuo insistindo.
* Cientista Social e
Coordenador Adjunto do Núcleo
Macaé da Agenda 21 de Nova Friburgo
- 21 de janeiro de 2007