POR DENTRO DE NOVA FRIBURGO
Nova Friburgo
Levanta, sacode a
poeira e dá a volta por cima, Nova Friburgo!
*
Marcelo Castañeda
Terminado o carnaval, a população
de Nova Friburgo pode começar a "dar a volta por cima". Seguindo
o samba que intitula este artigo, "sacudir a poeira" é o
próximo passo, considerando a boa participação popular nos festejos
carnavalescos locais, "levantando o astral". A construção
de uma identidade cultural numa perspectiva democrática, crítica e
globalizada é o ponto a ser desenvolvido neste artigo.
Um dos caminhos para a construção
e fortalecimento de uma identidade cultural friburguense é entender
que cultura é essencialmente um conjunto de práticas humanas produtoras
de significados orientadores dos indivíduos através da construção
e negociação de formas simbólicas. Torna-se necessário conhecer
e entender essas práticas antes da criação de slogans ("Lugar
de ser feliz", por exemplo), campanhas e até programas sociais
que pretendam construir uma identidade cultural. Sem esse conhecimento,
o processo se inicia "de cima para baixo", quando apenas se
torna legítimo quando percorre o caminho inverso em seu início, ou
seja, "de baixo para cima".
Torna-se fundamental entender que a
globalização, caracterizada na questão cultural por uma descentralização
da subjetividade e uma fragmentação do conhecimento, supõe uma descentralização
dos centros de poder tradicionais. Considerando essa perspectiva otimista
da globalização, pode-se pensar numa ampliação das possibilidades
relacionadas à construção de identidades culturais locais.
Tão fundamental a ser entendido quanto
cultura e globalização, o conceito de crítica social democrática
é entendido como a garantia de que cada indivíduo tenha a percepção
de qualidade de vida e justiça a partir de um conjunto de normas que
o constitui. Entretanto, que possibilidade (ou não) tem os indivíduos
modernos de conhecimento e controle de seus destinos? Bauman (1992)
afirma que o paradoxo ético da condição pós-moderna é o de propiciar
aos agentes a possibilidade de escolha moral sem lhes dar o conforto
de uma orientação universal que a modernidade oferecia.
A construção de uma identidade cultural
friburguense em ambiente globalizado passa necessariamente por uma radicalização
crítico-democrática dos indivíduos através da negociação entre
as formas simbólicas fragmentadas que compõem seu tecido social.
Além disso, torna-se importante entender
que memória coletiva possui Nova Friburgo. Quais são suas raízes,
suas continuidades e descontinuidades? Certamente não será nesse pequeno
espaço que aparecerá uma resposta possível dentre tantas, mas tão
somente uma reflexão.
Importante atentar que a luta pela
memória tanto pode significar a conquista da liberdade, considerando
que a consciência de uma historicidade e a construção do passado
por atores do presente apontam novas possibilidades de ação no sentido
de uma identidade cultural, quanto também pode ser responsável por
coerções, exclusões e todo tipo de controle social.
A memória coletiva de Nova Friburgo
passa (1) pelo desprezo e negação, reparados recentemente por estudos
históricos regionais, dos quilombolas e indígenas que ocupavam este
território antes da chegada dos imigrantes suíços, bem como do passado
escravocrata e de servir como rota de contrabando do ouro mineiro; (2)
pela superação dos imigrantes suíços frente a adversidades climáticas,
naturais, nos primórdios da (colonizada) colonização suíça; (3)
pela opressão das classes trabalhadoras a partir da chegada dos imigrantes
alemães e conseqüente início da industrialização a partir do capital
alemão, dificultando a formação de uma classe operária e dificultando
o estabelecimento de laços de solidariedade entre os operários; (4)
nas décadas de 1930 e 1940, pelo desenvolvimento de uma rede hoteleira
expressiva, que não materializou, ainda, o propagado "potencial
turístico" de Nova Friburgo; e, novamente, (5) pela superação
de uma parcela de trabalhadores da Fábrica de Filó (Triumph) que souberam
"levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima", estruturando,
a partir de suas demissões entre meados da década de 1970 e 1980,
o, hoje, denominado Pólo Industrial de Moda Íntima.
Não tenho dúvidas acerca da capacidade
de superação da população de Nova Friburgo perante a catástrofe
que se abateu sobre o desgovernado município de Nova Friburgo depois
das chuvas de Dezembro / 2006 e Janeiro /2007.
O "sacudir a poeira" numa
perspectiva cultural, passa pelo conhecimento e entendimento dos diversos
fragmentos culturais, a fim de "dar a volta por cima" com
o empoderamento da sociedade civil e a construção de uma identidade
cultural que gere auto-estima à população de Nova Friburgo e um promissor
horizonte.
* Cientista Social e
Coordenador do Núcleo de Pesquisas
e Projetos Sociais da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova
Friburgo- RJ.
E-mail: marcastara@gmail.com
*
JSO – 28 de fevereiro de 2007